Mineração marinha: o que é, onde está e por que o Brasil acompanha de perto
O que é mineração marinha, que minerais existem no fundo do oceano, onde o Brasil pesquisa e por que o tema divide cientistas, governos e empresas.

A alguns quilômetros de profundidade, no escuro total e sob pressão extrema, o fundo do oceano guarda concentrações de cobre, cobalto, zinco, ouro e terras raras que podem superar as reservas terrestres conhecidas. A mineração marinha em grandes profundidades ainda não existe como atividade comercial, mas a corrida global por minerais críticos acelerou pesquisas e debates sobre quando, como e se essa extração vai acontecer. O Brasil, com sua vasta plataforma atlântica, está no centro dessa discussão.
Em resumo
- A mineração marinha em profundidade mira três tipos de depósito: nódulos polimetálicos no fundo abissal, crostas ferromanganíferas em montes submarinos e sulfetos polimetálicos maciços perto de fontes hidrotermais.
- O Brasil identificou novos indícios de atividade hidrotermal na Cordilheira Mesoatlântica em outubro de 2026, com potencial para depósitos de cobre, zinco, ouro e prata.
- Não existe mineração comercial em águas profundas em nenhum lugar do mundo. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) ainda não aprovou nenhuma operação de extração.
- O Brasil tem 765 pedidos ativos de mineração em zonas costeiras (fosfato e sal potássico), mas nenhum para águas profundas. A lei brasileira não distingue mineração submarina de terrestre.
- O país apoia uma moratória cautelar de 10 anos na mineração em águas internacionais e mantém a pesquisa científica como prioridade.
O que se busca no fundo do mar
Existem três tipos principais de depósito mineral em águas profundas, cada um com características próprias:
Nódulos polimetálicos. São concreções arredondadas de 5 a 10 centímetros que repousam sobre o sedimento do fundo oceânico, entre 4.000 e 6.000 metros de profundidade. Contêm manganês, níquel, cobre e cobalto. A zona Clarion-Clipperton, no Pacífico entre o Havaí e o México, é a área mais estudada: estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) apontam cerca de 21,1 bilhões de toneladas de nódulos na região.
Crostas ferromanganíferas. Camadas finas de minerais que se formam sobre rochas duras em montes submarinos, ao longo de milhões de anos. Têm teores mais altos de cobalto que os nódulos, mas estão firmemente aderidas ao substrato, o que torna a extração mais difícil. O alvo principal do Brasil é esse tipo de depósito, no platô submarino conhecido como Elevação do Rio Grande, a cerca de 2.300 km da costa.
Sulfetos polimetálicos maciços. Formam-se perto de fontes hidrotermais, onde água do mar aquecida pelo interior da crosta terrestre transporta metais dissolvidos e os deposita ao esfriar. São ricos em cobre e zinco, com concentrações de ouro e prata. Em outubro de 2026, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) anunciou a identificação de novos indícios de atividade hidrotermal na Cordilheira Mesoatlântica, ao norte do arquipélago de São Pedro e São Paulo, durante a expedição Procordilheira.
Como o Brasil está se preparando
O Brasil não opera nenhuma mina no fundo do mar e não recebeu pedidos formais de pesquisa mineral em águas profundas, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). O que acontece são pesquisas científicas e pedidos em zonas costeiras rasas.
Dos 765 pedidos ativos de mineração em zonas marinhas brasileiras, cerca de 70% foram registrados depois de 2010, quase todos para fosfato e sal potássico em áreas costeiras. Nenhum deles mira águas profundas.
A expedição Procordilheira, realizada entre 9 de setembro e 8 de outubro de 2026 a bordo do navio Vital de Oliveira, investigou três áreas da Cordilheira Mesoatlântica. Os pesquisadores encontraram anomalias de partículas em suspensão na água que podem indicar fontes hidrotermais associadas a depósitos minerais. O SGB ressalta que ainda são necessárias análises complementares para confirmar a atividade hidrotermal e determinar o potencial mineral da região.
O programa faz parte do PROAREA, que investiga recursos minerais em áreas oceânicas fora da jurisdição nacional. Os dados coletados poderão subsidiar futuros pedidos brasileiros de direitos de exploração junto à ISA.
Por que o Brasil não está minerando o fundo do mar
Existem pelo menos quatro razões pelas quais a mineração marinha em profundidade ainda não saiu do papel no Brasil:
Falta de regulação específica. A lei brasileira de mineração não distingue entre extração em terra e no fundo do mar. O mesmo marco legal que rege uma mina de ferro em Minas Gerais se aplicaria, teoricamente, a uma operação a três quilômetros abaixo do Atlântico. Em 2025, um pedido de extração em águas profundas foi processado sem licenciamento ambiental completo, expondo essa lacuna.
Posição cautelar do IBAMA. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente considera que o conhecimento científico atual é insuficiente para avaliar pedidos de mineração em águas profundas. Não existem protocolos específicos de avaliação de impacto, nem dados ecológicos de referência sobre os ecossistemas abissais brasileiros.
Moratória internacional. O Brasil defende uma pausa cautelar de 10 anos na mineração comercial em águas internacionais, até que existam padrões ambientais robustos. Essa posição é compartilhada por outros países e por entidades científicas.
Desafios tecnológicos. A extração em grandes profundidades exige equipamentos capazes de operar sob pressões extremas, sistemas para transportar material do fundo até a superfície e logística complexa. Nenhuma refinaria comercial no mundo ainda resolveu o desafio de separar eficientemente os cinco ou mais minerais presentes nos nódulos polimetálicos.
A corrida global: quem está fazendo o quê
Enquanto o Brasil mantém a postura cautelar, outros países avançam em ritmos diferentes:
- Estados Unidos. O decreto presidencial de abril de 2025 acelerou a mineração submarina. A NOAA recebeu o primeiro pedido consolidado de exploração e extração comercial, da TMC USA, para uma área de 65.000 km² na zona Clarion-Clipperton com estimativa de 619 milhões de toneladas de nódulos. Em setembro de 2026, o secretário do Interior Doug Burgum afirmou que as primeiras licenças poderão ser emitidas nos próximos meses.
- China. Empresas chinesas detêm cinco contratos de exploração vinculados à ISA, para nódulos polimetálicos, sulfetos e crostas ricas em cobalto. A China respondeu por 71% da mineração mundial de terras raras e por 87% do processamento desses elementos em 2024, segundo o USGS.
- Japão. Em fevereiro de 2026, o navio de pesquisa Chikyu retirou lama rica em terras raras a cerca de 5.700 metros de profundidade perto da ilha de Minamitorishima. Testes de extração em escala estão previstos para fevereiro de 2027.
- Noruega. Abriu áreas para exploração em águas profundas sob sua jurisdição, com salvaguardas ambientais condicionais.
Os riscos ambientais
Os ecossistemas do fundo do mar estão entre os menos conhecidos do planeta. As espécies que vivem nessas regiões se adaptaram a condições estáveis, de baixa energia, e podem levar décadas ou séculos para se recuperar de uma perturbação. Os principais riscos identificados pela comunidade científica incluem:
- Perda de biodiversidade marinha profunda, com espécies de recuperação extremamente lenta.
- Nuvens de sedimentos geradas pela extração, que podem se espalhar por centenas de quilômetros e sufocar organismos filtradores.
- Perturbação do sequestro de carbono: o fundo do mar funciona como reservatório de carbono de longo prazo, e a perturbação dos sedimentos pode liberar parte desse carbono na coluna d’água.
- Mobilização de metais tóxicos: os nódulos polimetálicos contêm concentrações elevadas de cádmio, chumbo e mercúrio, que podem ser liberados na água.
- Poluição sonora: equipamentos industriais em profundidade geram ruído que interfere na comunicação e na navegação da fauna marinha.
O IBAMA e autoridades ambientais de diversos países consideram que esses riscos, combinados e pouco compreendidos, justificam a postura cautelar.
O que acontece a partir de agora
No Brasil, os resultados da expedição Procordilheira vão orientar novas campanhas científicas. A questão sobre se o país vai ou não autorizar a mineração em águas profundas depende de uma sequência de decisões: a aprovação (ou não) do pedido brasileiro de extensão da Zona Econômica Exclusiva para incluir a Elevação do Rio Grande, a criação de um marco regulatório específico para mineração submarina e a definição de protocolos ambientais pela ISA.
Enquanto isso, a pesquisa científica continua sendo a prioridade. Como disse o diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB, Francisco Valdir Silveira, à CNN Brasil: “Nossa missão é primeiro conhecer, explorar no sentido mais profundo da palavra, como foram os exploradores.”
Perguntas frequentes
Existe mineração comercial no fundo do mar em algum lugar do mundo?
Não. Até outubro de 2026, nenhuma operação de extração mineral comercial em águas profundas foi autorizada pela ISA nem por qualquer país. Existem apenas contratos de pesquisa e, nos Estados Unidos, pedidos de licença em análise.
Que minerais são encontrados no fundo do oceano?
Os principais são cobre, zinco, níquel, cobalto, manganês, ouro e prata, presentes em três tipos de depósito: nódulos polimetálicos, crostas ferromanganíferas e sulfetos polimetálicos maciços. Em algumas regiões, como perto da ilha de Minamitorishima no Japão, também há lama rica em terras raras.
O Brasil já tem pedidos de mineração no mar?
Sim, mas apenas em águas costeiras rasas. São 765 pedidos ativos, a maioria para fosfato e sal potássico. Nenhum pedido foi feito para águas profundas. O Brasil conduz pesquisas científicas na Cordilheira Mesoatlântica e na Elevação do Rio Grande.
Qual é a posição do Brasil sobre a mineração marinha?
O Brasil apoia uma moratória cautelar de 10 anos na mineração comercial em águas internacionais e mantém a pesquisa científica como prioridade. O IBAMA considera o conhecimento atual insuficiente para avaliar pedidos de extração em águas profundas, e a legislação brasileira não possui regras específicas para mineração submarina.
Quanto tempo vai demorar para a mineração marinha acontecer?
É difícil prever. Os cenários vão da criação de uma regulação robusta com atividade comercial no início dos anos 2030 até a manutenção indefinida da fase de pesquisa. Tudo depende do ritmo da ISA, das decisões nacionais sobre regulação e da evolução da tecnologia de extração em profundidade.
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Fontes
- CNN Brasil – Brasil encontra novos indícios de minerais críticos no fundo do Atlântico (23/10/2026)
- Discovery Alert – Brazil's Deep-Sea Mining Plan: Risks & Regulations (2026)
- A&O Shearman – Deep sea mining in 2026: regulation, geopolitics and the race for critical minerals (2026)
- CPG Click Petróleo e Gás – EUA e China levam corrida por minerais críticos ao fundo dos oceanos (24/10/2026)
- Gazeta do Povo – EUA e China levam corrida por minerais críticos e terras raras para o fundo dos oceanos (24/10/2026)
- SGB – Serviço Geológico do Brasil (expedição Procordilheira, 2026)
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