Barragem de rejeitos: o que é e por que algumas são perigosas
O que é uma barragem de rejeitos, como ela é construída, por que o método a montante é o mais arriscado e o que mudou nas regras depois de Mariana e Brumadinho.

Uma barragem de rejeitos é um reservatório construído para guardar o material que sobra quando o minério é processado, uma mistura de partículas finas e água. O risco depende muito de como ela foi construída e mantida. As que crescem “a montante”, apoiadas sobre o próprio rejeito, são as mais vulneráveis, e foi esse o tipo das estruturas que romperam em Mariana (MG), em 2015, e em Brumadinho (MG), em 2019.
Em resumo
- Rejeito é o que sobra do beneficiamento do minério: um material fino, geralmente misturado com muita água.
- Uma barragem de rejeitos cresce aos poucos, por alteamentos, que podem ser feitos a montante, a jusante ou por linha de centro.
- O método a montante é mais barato, mas mais sujeito à liquefação, quando o rejeito encharcado passa a escoar como líquido.
- A Lei nº 14.066/2020 proibiu o método a montante e obrigou a descaracterização dessas barragens. Em outubro de 2026, ainda restavam 38, segundo a ANM.
- Qualquer pessoa pode consultar a situação das barragens no SIGBM Público, da Agência Nacional de Mineração (ANM).
O que são rejeitos e por que precisam ser guardados
No beneficiamento, o minério é britado, moído e concentrado (as etapas estão em Como funciona uma mina). O que não tem valor econômico vira rejeito. Segundo o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), com minérios de teor mais baixo a quantidade de rejeito pode superar em muito a de produto.
Como o processo usa água, o rejeito sai como polpa, uma lama. Equipamentos chamados espessadores retiram parte da água, mas, segundo o CETEM, a polpa ainda fica com apenas 40% a 50% de sólidos. É essa lama que precisa de um lugar seguro durante toda a vida da mina, e depois dela.
Como uma barragem de rejeitos cresce: os três métodos
Dois termos ajudam. Montante é o lado do reservatório; jusante, o lado do vale. A barragem começa com um dique de partida e, conforme o reservatório enche, é aumentada em etapas, os alteamentos. O que muda entre os métodos é a direção em que o eixo da barragem se desloca:
| Método | Como funciona | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|
| A montante | Cada novo dique fica sobre a “praia” de rejeito já depositado. | Menor custo, alteamento mais rápido. | Menor segurança, risco de liquefação. |
| A jusante | Cada novo dique avança para o vale, com material compactado e drenagem interna. | Mais segurança e resistência a vibrações. | Custo mais alto, mais material. |
| Linha de centro | A crista sobe no mesmo eixo, parte sobre o rejeito, parte sobre o dique. | Comportamento próximo ao do método a jusante, custo intermediário. | A parte a montante pode escorregar. |
Fonte: CETEM (2010) e ANA/SNISB.
Em nota de fevereiro de 2019, a ANM registrou que o método a montante foi “largamente adotado entre as décadas de 70 e 90” e que estava “obsoleto”.
Por que o método a montante é mais arriscado: a liquefação
Dentro da barragem, os grãos finos do rejeito podem formar camadas fofas e encharcadas. Segundo o CETEM, se esse material sofre um carregamento súbito, estático ou dinâmico (como vibrações), a pressão da água entre os grãos aumenta, eles deixam de se apoiar uns nos outros e o rejeito pode fluir como um líquido viscoso. É a liquefação.
No método a montante, os novos diques se apoiam justamente sobre esse material: se ele liquefaz, a base cede. O CETEM aponta como gatilhos possíveis sismos, explosões na mina e tráfego de equipamentos. Num levantamento de acidentes com barragens de rejeitos citado pelo centro, a liquefação é a causa mais frequente, com 46,7% dos casos.
Mariana e Brumadinho: o que aconteceu
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), as duas barragens eram alteadas a montante. Por trás dos números estão vidas perdidas e comunidades que ainda convivem com as consequências.
Fundão, em Mariana (5 de novembro de 2015). Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a barragem da Samarco rompeu por volta das 15h30, e cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos vazaram de imediato. A onda soterrou parte de Bento Rodrigues e matou 19 pessoas. A lama desceu pelos rios Gualaxo do Norte e do Carmo, alcançou o Rio Doce e chegou ao Oceano Atlântico em 21 de novembro, em Linhares (ES). Um estudo encomendado pela Samarco, de agosto de 2016, apontou problemas de drenagem desde 2009 e um trecho da barragem erguido sobre base instável.
B1, na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (25 de janeiro de 2019). A barragem da Vale rompeu por volta das 12h30, segundo a Agência Brasil, e liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos, segundo o MPF. O MPF contabiliza 270 mortes; a associação de familiares Avabrum conta 272, incluindo os bebês de duas mulheres grávidas, número também usado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Em janeiro de 2026, segundo a ALMG, duas pessoas seguiam desaparecidas. Os rejeitos atingiram a bacia do Rio Paraopeba e mais de 20 municípios. Um painel de especialistas contratado em nome da Vale concluiu, em dezembro de 2019, que houve liquefação estática dos rejeitos. Em julho de 2026, a ação penal estava na fase de depoimentos, segundo o MPF.
O que mudou nas regras
A base é a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), da Lei nº 12.334/2010, que vale para barragens com 15 metros de altura ou mais, 3 milhões de metros cúbicos ou mais, resíduos perigosos ou dano potencial médio ou alto, entre outros casos. Cada uma recebe duas notas (alto, médio ou baixo): a categoria de risco, ligada ao estado e ao método da estrutura, e o dano potencial associado, o estrago que um rompimento causaria, independentemente da probabilidade de ele acontecer. Depois de Brumadinho, as regras endureceram:
- Resolução ANM nº 13/2019: proibiu o método a montante, segundo o histórico da agência.
- Lei nº 14.066, de 30 de setembro de 2020: proibiu a construção ou o alteamento de barragens de mineração a montante e mandou descaracterizar as existentes até 25 de fevereiro de 2022, prazo que a ANM pode prorrogar. Descaracterizada é a barragem que deixa de conter rejeitos e ganha outra finalidade. A lei também vetou novas barragens com comunidade na Zona de Autossalvamento (ZAS), o trecho do vale onde não haveria tempo para o socorro chegar, e previu multas de até R$ 1 bilhão.
- Resolução ANM nº 95, de 7 de fevereiro de 2022: reuniu as normas de segurança das barragens de mineração e detalhou a descaracterização e os níveis de alerta e de emergência.
- Resolução ANM nº 220/2025: publicada em outubro de 2025, substituirá a 95/2022 a partir de agosto de 2027 e redefine os estágios de atenção, alerta e emergência.
SIGBM: como acompanhar a situação das barragens
O Sistema Integrado de Gestão de Segurança de Barragens de Mineração (SIGBM) é o cadastro da ANM. A versão pública mostra a categoria de risco e o nível de alerta ou emergência de cada barragem. Pela Resolução 95/2022, os níveis são:
| Nível | O que significa |
|---|---|
| Alerta | Anomalia que não traz risco imediato, mas precisa ser controlada e monitorada. |
| Emergência 1 (NE1) | Potencial comprometimento da segurança, como fator de segurança abaixo do mínimo. |
| Emergência 2 (NE2) | Anomalia não controlada. |
| Emergência 3 (NE3) | Ruptura inevitável ou já em curso. |
Segundo o boletim da ANM, em 1º de outubro de 2026 havia 908 barragens de mineração cadastradas, 465 delas na PNSB, e 82 em alerta ou emergência: uma em nível 3 e seis em nível 2. Garantir a estabilidade dessas estruturas é uma das atribuições descritas em O que faz uma engenheira de minas.
Como está a descaracterização em 2026
O relatório da ANM de outubro de 2026 (dados de 3 de outubro) mostra avanço e atraso ao mesmo tempo:
- Em 2019, havia 74 barragens a montante enquadradas na PNSB. Hoje são 38.
- 28 foram descadastradas depois de concluir a descaracterização, e 15 tiveram o método construtivo alterado.
- 19 têm obras em andamento, e 11 já terminaram as obras e estão em monitoramento.
- Minas Gerais concentra 61% das restantes, e 37% delas estão em algum nível de alerta ou emergência.
- Em alguns casos, a previsão de fim das obras vai até dezembro de 2035.
O prazo original da lei, fevereiro de 2022, ficou para trás. A ANM diz ter se manifestado sobre a prorrogação para todas as barragens restantes, considerando a complexidade de cada caso. Veja também Mitos e verdades sobre a mineração.
Existem alternativas às barragens?
Sim, e elas vêm ganhando espaço:
- Processamento a seco: alguns minérios de ferro podem ser beneficiados sem água, sem gerar rejeito em polpa. Segundo a Vale, cerca de 80% da sua produção de minério de ferro no Brasil não usava barragens entre janeiro e setembro de 2023.
- Filtragem e empilhamento: filtros retiram a água do rejeito, que é empilhado em vez de ir para um reservatório, e a água volta para a usina. A Vale informa ter quatro plantas de filtragem em Minas Gerais, com capacidade para 60 milhões de toneladas por ano.
Pilhas também exigem projeto e fiscalização: em julho de 2026, a ANM registrou uma antiga barragem a montante, em Cajati (SP), convertida em empilhamento drenado não suscetível à liquefação. E os minerais continuam necessários no cimento, no aço e nos eletrônicos, como mostra Mineração no dia a dia. A questão é produzi-los com segurança.
Perguntas frequentes
O que é uma barragem de rejeitos?
É um reservatório que guarda os rejeitos do beneficiamento do minério, uma mistura de partículas finas e água. Ela cresce em etapas, os alteamentos, conforme o reservatório enche.
Por que as barragens a montante são mais perigosas?
Porque os novos diques se apoiam no próprio rejeito, que pode estar fofo e encharcado. Um carregamento súbito pode provocar liquefação: o rejeito perde resistência e flui como líquido.
As barragens a montante ainda existem no Brasil?
Sim. A Lei nº 14.066/2020 proibiu o método e exigiu a descaracterização, mas em outubro de 2026 ainda havia 38 delas na PNSB, segundo a ANM, algumas com obras previstas até 2035.
O que significa nível de emergência 3?
É o nível mais grave da escala da ANM: a ruptura é inevitável ou já está acontecendo. Em 1º de outubro de 2026, uma barragem estava nesse nível.
Como saber se há uma barragem perto de mim?
Consulte o SIGBM Público da ANM (app.anm.gov.br/SIGBM/Publico), que mostra as barragens de mineração, a categoria de risco e o nível de alerta ou emergência, em tempo real.
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Fontes
- CETEM – Barragem de Rejeitos (Lindolfo Soares), capítulo 19 do livro Tratamento de Minérios, 5ª edição (agosto de 2010)
- ANA/SNISB – Definições importantes sobre segurança de barragens
- Lei nº 12.334/2010 (Política Nacional de Segurança de Barragens)
- Lei nº 14.066/2020 (altera a Política Nacional de Segurança de Barragens)
- ANM – Nota explicativa sobre barragens construídas ou alteadas pelo método a montante (15/2/2019)
- Resolução ANM nº 175/2024, que altera a Resolução ANM nº 95/2022 (texto reproduzido pela Lex)
- ANM – Apresentação da Resolução ANM nº 95/2022 (março de 2022, arquivo publicado pelo IBRAM)
- ANM – Boletim mensal de segurança de barragens de mineração, setembro de 2026
- ANM – Reporte trimestral: descaracterização de barragens a montante (outubro de 2026)
- Demarest – Resolução ANM nº 220/2025 estabelece a disciplina aplicável às barragens de mineração
- MPF – Caso Samarco: o desastre
- Agência Brasil – Estudo encomendado pela Samarco mostra falha que causou tragédia em Mariana (30/8/2016)
- MPF – MPF conclui primeiro semestre de oitivas na ação penal do caso Brumadinho (3/7/2026)
- Agência Brasil – Após 7 anos, tragédia de Brumadinho será examinada na Justiça (25/1/2026)
- Agência Brasil – Processo criminal da tragédia em Brumadinho pode voltar à estaca zero (25/1/2022)
- ALMG – ALMG homenageia vítimas de Brumadinho (23/1/2026)
- Agência Brasil – Brumadinho: combinação entre deformações causou rompimento da barragem (12/12/2019)
- Vale – Cerca de 80% da produção de minério de ferro da Vale no Brasil não utiliza barragens de rejeitos (18/1/2024)
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