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Notícias da MineraçãoNotícia explicada

Capital estrangeiro nas terras raras brasileiras: riscos e oportunidades

Estrangeiras têm 42% dos pedidos de pesquisa de terras raras no Brasil e a maioria dos projetos avançados. Veja quem são e o que diz a nova lei.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Pilhas de contêineres coloridos e guindastes no terminal de cargas do Porto de Salvador, com casas e uma igreja no alto do morro ao fundo
Terminal de contêineres do Porto de Salvador (BA). Para onde vai o minério, e em que forma, é uma das perguntas centrais do debate. Imagem: Samory Pereira Santos · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

As empresas estrangeiras já estão no centro das terras raras no Brasil. Segundo um levantamento da Repórter Brasil com a agência Associated Press, feito com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), elas respondem por 42% dos pedidos de pesquisa desses minerais e por 31 dos 45 processos mais avançados do país. Isso traz dinheiro e experiência, mas também levanta perguntas sobre quem fica com o valor e com o controle desse recurso. Abaixo, explicamos o que os números mostram, quem são as empresas, os argumentos de cada lado e o que a nova lei muda.

O que aconteceu

Em agosto de 2026, a Repórter Brasil publicou a análise de todos os requerimentos na ANM em que terras raras aparecem como substância principal. Requerimento é o pedido que uma empresa faz para pesquisar ou explorar uma área. Os donos de cada empresa foram identificados com registros da Receita Federal, de juntas comerciais e do órgão regulador do mercado de capitais dos EUA.

Os principais resultados, com dados até junho de 2026:

  • foram 2.727 requerimentos, e 86% deles foram protocolados de 2023 para cá;
  • empresas ligadas a capital estrangeiro são só 12% dos titulares, mas têm 42% dos pedidos;
  • entre os 45 processos mais avançados (em operação ou em pré-operação comercial), 31 são de capital estrangeiro;
  • 11 das 20 empresas com mais requerimentos têm ligação com investidores de fora;
  • as australianas lideram, com 695 requerimentos, seguidas pelas americanas, com 347.
Gráfico de barras: empresas estrangeiras são 12% dos titulares, têm 42% dos 2.727 pedidos de pesquisa de terras raras e 31 dos 45 processos mais avançados
Poucas empresas estrangeiras concentram grande parte dos pedidos e dos projetos mais avançados. Dados da Repórter Brasil e da Associated Press com base na ANM.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Ou seja: há menos empresas estrangeiras do que brasileiras na disputa, mas elas pedem mais áreas e estão mais perto de produzir.

Quem são as principais empresas

Os nomes que mais aparecem nos projetos avançados vêm da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá. A tabela resume o que cada empresa informa sobre onde pretende separar os elementos, a etapa mais valiosa da cadeia.

Empresa (origem) Projeto O que a empresa diz sobre o processamento
USA Rare Earth (EUA), dona da Serra Verde desde 3/9/2026 Mina Pela Ema, Minaçu (GO), a única em produção comercial A produção de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio da primeira fase está vendida, num contrato anunciado como de 15 anos, a um veículo financiado por agências do governo americano e por capital privado. O comunicado da compra não diz onde o material será separado.
Lynas (Austrália), em processo de compra da Meteoric Caldeira, Poços de Caldas (MG) A Lynas “vai fazer estudos” sobre processamento adicional no Brasil e cita a possibilidade de integrar o projeto à sua fábrica na Malásia.
Aclara (Canadá) Carina, Nova Roma (GO) Planeja enviar um carbonato de terras raras para a sua futura fábrica de separação na Louisiana, nos Estados Unidos.
Brazilian Rare Earths (Austrália) Rocha da Rocha (BA) Planeja uma refinaria com etapa de separação no Polo Petroquímico de Camaçari (BA). Na mina, só concentração a seco.

Os detalhes geológicos de cada projeto estão em Terras raras no Brasil: onde estão e quais projetos existem. O negócio da Lynas é explicado em Projeto Caldeira, em Poços de Caldas: o que a compra pela Lynas significa.

E a China? Segundo a Repórter Brasil, empresas chinesas não tinham nenhum requerimento de terras raras no Brasil até junho de 2026, mas começam a se movimentar. A Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado do país, foi comprada pela estatal China Nonferrous Metal Mining Group e anunciou planos de estudar terras raras na região da mina, na Amazônia. Em 2025, a chinesa Shenghe Resources assinou um memorando de entendimento com as brasileiras WEG Mineração e Fenrir do Brasil.

Por que importa

A China concentra a maior parte do refino de terras raras do mundo, como explicamos em Por que a China domina as terras raras. Estados Unidos, Austrália e outros países buscam fontes fora dela, e o Brasil, com a segunda maior reserva do mundo (cerca de 11 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos), virou alvo natural. Para Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, o movimento “parece fazer parte de uma tentativa mais ampla de construir uma cadeia de suprimento de terras raras sem a China”, com o Brasil como base de recursos.

O caso da Serra Verde mostra o tamanho do interesse. Segundo o comunicado da USA Rare Earth de abril de 2026, a empresa brasileira já tinha garantido um financiamento de US$ 565 milhões da DFC, a agência de financiamento ao desenvolvimento do governo americano, e o contrato de venda da produção inclui preços mínimos garantidos para neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, os elementos usados em ímãs. A Repórter Brasil cita ainda um apoio de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos EUA à USA Rare Earth, anunciado em janeiro de 2026. A compra foi concluída por cerca de US$ 2,8 bilhões, como contamos em Por que todo mundo está falando de terras raras?.

A questão de fundo é: quanto do valor das terras raras vai ficar no Brasil? A mina gera concentrado, e o valor maior está nas etapas seguintes: separar os elementos, produzir metais e fabricar ímãs. Veja mais em Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

Os lados do debate

Os argumentos a favor do capital estrangeiro

  • Pesquisa mineral é cara e arriscada. Julio Nery, diretor de assuntos minerários do Ibram (o instituto que representa as mineradoras), explicou à Repórter Brasil que, de cada mil ocorrências de terras raras, só cem justificam sondagem. “Desses cem, você acaba ficando com apenas dois bons projetos”, disse. Empresas de fora ajudam a bancar esse risco.
  • Conhecimento e capital. Sobre as mineradoras australianas, Muggah afirmou: “Elas trazem conhecimento geológico, capital, disposição para assumir riscos e credibilidade perante governos ocidentais que buscam alternativas ao fornecimento chinês”.
  • Mercado garantido. Contratos longos de venda, como o da Serra Verde, dão previsibilidade para financiar a mina.
  • Empregos locais. A Serra Verde tinha mais de 350 funcionários em abril de 2026, sem contar terceirizados, e 66% deles eram da comunidade local, segundo a USA Rare Earth.
  • Experiência no refino. A Lynas é a única produtora comercial de óxidos separados de terras raras leves e pesadas fora da China, segundo a própria empresa. É justamente a etapa que o Brasil não domina.

Os argumentos de quem pede cautela

  • O valor pode ir embora. Se o concentrado for separado nos Estados Unidos, na Malásia ou em outro país, o Brasil fica com a etapa de menor valor. O deputado Zé Silva (União Brasil-MG), autor do projeto que virou a Lei 15.506/2026, resumiu a posição: “as empresas são bem-vindas para investir, mas precisam transferir tecnologia para o Brasil, incluindo capacidade de processamento”.
  • Produção já comprometida. Contratos que destinam toda a produção dos elementos de ímãs de uma mina a um único comprador por 15 anos podem limitar o uso desse material por uma futura indústria nacional de ímãs.
  • Concentração. Segundo o levantamento, poucas empresas, a maioria estrangeiras, concentram grande parte dos pedidos e dos projetos mais avançados.
  • Impactos sobre territórios. Segundo a Repórter Brasil, 25% dos requerimentos se sobrepõem ou ficam a até 10 km de unidades de conservação ou de comunidades tradicionais. Um exemplo é o Quilombo Família Magalhães, em Goiás, cujo território coincidia em parte com áreas do Projeto Carina. A Aclara afirma que decidiu excluir essas áreas e que elas “permanecerão fora do empreendimento”.

Há também uma posição intermediária, que aparece no próprio governo. Carlos Leonardo Durans, diretor do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), disse à Repórter Brasil que “o passaporte para atuar no nosso país é o compromisso real com o desenvolvimento conjunto, para agregação de valor”. A Brazilian Rare Earths, com a refinaria planejada na Bahia, é um exemplo de empresa estrangeira que promete fazer a separação aqui.

O que a nova lei muda

A Lei 15.506/2026, sancionada em 16 de setembro, não proíbe nem limita a participação estrangeira. Ela cria, porém, um mecanismo de triagem: o conselho criado pela lei (Cimce) e a ANM podem ter de homologar, ou seja, aprovar, operações como:

  • a mudança de controle, direta ou indireta, de empresas com direitos minerários de minerais críticos e estratégicos;
  • a “participação relevante ou influência significativa de pessoas jurídicas estrangeiras” nessas empresas;
  • contratos e parcerias internacionais de fornecimento desses minerais;
  • a venda ou a cessão de títulos minerários.

A lei também permite vincular a exportação a compromissos de agregação de valor e exigir informações sobre o volume, o destino e o beneficiário final do que é exportado.

O mecanismo já está em uso. Segundo o comunicado da Lynas e da Meteoric, a compra do Projeto Caldeira depende da aprovação do conselho para a mudança de controle. Mas há lacunas: segundo análise do escritório Demarest, o decreto que regulamentou o conselho não definiu critérios objetivos para conceitos como “participação relevante” e “influência significativa”. Na prática, ainda não se sabe com clareza quais negócios precisarão passar pelo conselho.

E agora?

Com a reeleição de Lula, em 25 de outubro, alguns pontos vão mostrar para onde o setor caminha:

  1. A primeira decisão sobre Caldeira. Será um teste de como o conselho trata uma troca de controle entre duas empresas estrangeiras e se vai cobrar algum compromisso de processamento no Brasil.
  2. A regulamentação da triagem. Critérios mais claros vão dizer quais negócios precisam de aprovação e o que pode ser exigido das empresas.
  3. Onde as fábricas de separação serão construídas. Camaçari, Poços de Caldas, Louisiana, Malásia: as decisões das empresas nos próximos anos vão dizer quanto do valor fica no país.
  4. Os conflitos territoriais. Com milhares de pedidos de pesquisa, o licenciamento e a consulta às comunidades seguem no centro do debate.

A discussão já não é tanto sobre deixar ou não as empresas estrangeiras entrarem, e sim sobre as condições em que elas operam. O MineraMente vai acompanhar cada passo.

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Fontes

  1. Repórter Brasil e Associated Press – Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no Brasil (20/8/2026)
  2. Planalto – Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026 (Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos)
  3. Demarest Advogados – Lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos é sancionada; governo regulamenta o CIMCE (18/9/2026)
  4. USA Rare Earth – USA Rare Earth announces definitive agreement to acquire Serra Verde, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (20/4/2026)
  5. USA Rare Earth – USA Rare Earth Completes Combination with Serra Verde Group, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (4/9/2026)
  6. Lynas Rare Earths e Meteoric Resources – Lynas Rare Earths to acquire Meteoric Resources, comunicado conjunto à ASX (1/10/2026)
  7. Brazilian Rare Earths – Rocha da Rocha Scoping Study, comunicado à ASX (13/8/2026)
  8. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths
  9. Aclara Resources – Estudo de pré-viabilidade do Projeto Carina, comunicado via Stockwatch (6/11/2025)

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