Capital estrangeiro nas terras raras brasileiras: riscos e oportunidades
Estrangeiras têm 42% dos pedidos de pesquisa de terras raras no Brasil e a maioria dos projetos avançados. Veja quem são e o que diz a nova lei.

As empresas estrangeiras já estão no centro das terras raras no Brasil. Segundo um levantamento da Repórter Brasil com a agência Associated Press, feito com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), elas respondem por 42% dos pedidos de pesquisa desses minerais e por 31 dos 45 processos mais avançados do país. Isso traz dinheiro e experiência, mas também levanta perguntas sobre quem fica com o valor e com o controle desse recurso. Abaixo, explicamos o que os números mostram, quem são as empresas, os argumentos de cada lado e o que a nova lei muda.
O que aconteceu
Em agosto de 2026, a Repórter Brasil publicou a análise de todos os requerimentos na ANM em que terras raras aparecem como substância principal. Requerimento é o pedido que uma empresa faz para pesquisar ou explorar uma área. Os donos de cada empresa foram identificados com registros da Receita Federal, de juntas comerciais e do órgão regulador do mercado de capitais dos EUA.
Os principais resultados, com dados até junho de 2026:
- foram 2.727 requerimentos, e 86% deles foram protocolados de 2023 para cá;
- empresas ligadas a capital estrangeiro são só 12% dos titulares, mas têm 42% dos pedidos;
- entre os 45 processos mais avançados (em operação ou em pré-operação comercial), 31 são de capital estrangeiro;
- 11 das 20 empresas com mais requerimentos têm ligação com investidores de fora;
- as australianas lideram, com 695 requerimentos, seguidas pelas americanas, com 347.
Ou seja: há menos empresas estrangeiras do que brasileiras na disputa, mas elas pedem mais áreas e estão mais perto de produzir.
Quem são as principais empresas
Os nomes que mais aparecem nos projetos avançados vêm da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá. A tabela resume o que cada empresa informa sobre onde pretende separar os elementos, a etapa mais valiosa da cadeia.
| Empresa (origem) | Projeto | O que a empresa diz sobre o processamento |
|---|---|---|
| USA Rare Earth (EUA), dona da Serra Verde desde 3/9/2026 | Mina Pela Ema, Minaçu (GO), a única em produção comercial | A produção de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio da primeira fase está vendida, num contrato anunciado como de 15 anos, a um veículo financiado por agências do governo americano e por capital privado. O comunicado da compra não diz onde o material será separado. |
| Lynas (Austrália), em processo de compra da Meteoric | Caldeira, Poços de Caldas (MG) | A Lynas “vai fazer estudos” sobre processamento adicional no Brasil e cita a possibilidade de integrar o projeto à sua fábrica na Malásia. |
| Aclara (Canadá) | Carina, Nova Roma (GO) | Planeja enviar um carbonato de terras raras para a sua futura fábrica de separação na Louisiana, nos Estados Unidos. |
| Brazilian Rare Earths (Austrália) | Rocha da Rocha (BA) | Planeja uma refinaria com etapa de separação no Polo Petroquímico de Camaçari (BA). Na mina, só concentração a seco. |
Os detalhes geológicos de cada projeto estão em Terras raras no Brasil: onde estão e quais projetos existem. O negócio da Lynas é explicado em Projeto Caldeira, em Poços de Caldas: o que a compra pela Lynas significa.
E a China? Segundo a Repórter Brasil, empresas chinesas não tinham nenhum requerimento de terras raras no Brasil até junho de 2026, mas começam a se movimentar. A Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado do país, foi comprada pela estatal China Nonferrous Metal Mining Group e anunciou planos de estudar terras raras na região da mina, na Amazônia. Em 2025, a chinesa Shenghe Resources assinou um memorando de entendimento com as brasileiras WEG Mineração e Fenrir do Brasil.
Por que importa
A China concentra a maior parte do refino de terras raras do mundo, como explicamos em Por que a China domina as terras raras. Estados Unidos, Austrália e outros países buscam fontes fora dela, e o Brasil, com a segunda maior reserva do mundo (cerca de 11 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos), virou alvo natural. Para Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, o movimento “parece fazer parte de uma tentativa mais ampla de construir uma cadeia de suprimento de terras raras sem a China”, com o Brasil como base de recursos.
O caso da Serra Verde mostra o tamanho do interesse. Segundo o comunicado da USA Rare Earth de abril de 2026, a empresa brasileira já tinha garantido um financiamento de US$ 565 milhões da DFC, a agência de financiamento ao desenvolvimento do governo americano, e o contrato de venda da produção inclui preços mínimos garantidos para neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, os elementos usados em ímãs. A Repórter Brasil cita ainda um apoio de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos EUA à USA Rare Earth, anunciado em janeiro de 2026. A compra foi concluída por cerca de US$ 2,8 bilhões, como contamos em Por que todo mundo está falando de terras raras?.
A questão de fundo é: quanto do valor das terras raras vai ficar no Brasil? A mina gera concentrado, e o valor maior está nas etapas seguintes: separar os elementos, produzir metais e fabricar ímãs. Veja mais em Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.
Os lados do debate
Os argumentos a favor do capital estrangeiro
- Pesquisa mineral é cara e arriscada. Julio Nery, diretor de assuntos minerários do Ibram (o instituto que representa as mineradoras), explicou à Repórter Brasil que, de cada mil ocorrências de terras raras, só cem justificam sondagem. “Desses cem, você acaba ficando com apenas dois bons projetos”, disse. Empresas de fora ajudam a bancar esse risco.
- Conhecimento e capital. Sobre as mineradoras australianas, Muggah afirmou: “Elas trazem conhecimento geológico, capital, disposição para assumir riscos e credibilidade perante governos ocidentais que buscam alternativas ao fornecimento chinês”.
- Mercado garantido. Contratos longos de venda, como o da Serra Verde, dão previsibilidade para financiar a mina.
- Empregos locais. A Serra Verde tinha mais de 350 funcionários em abril de 2026, sem contar terceirizados, e 66% deles eram da comunidade local, segundo a USA Rare Earth.
- Experiência no refino. A Lynas é a única produtora comercial de óxidos separados de terras raras leves e pesadas fora da China, segundo a própria empresa. É justamente a etapa que o Brasil não domina.
Os argumentos de quem pede cautela
- O valor pode ir embora. Se o concentrado for separado nos Estados Unidos, na Malásia ou em outro país, o Brasil fica com a etapa de menor valor. O deputado Zé Silva (União Brasil-MG), autor do projeto que virou a Lei 15.506/2026, resumiu a posição: “as empresas são bem-vindas para investir, mas precisam transferir tecnologia para o Brasil, incluindo capacidade de processamento”.
- Produção já comprometida. Contratos que destinam toda a produção dos elementos de ímãs de uma mina a um único comprador por 15 anos podem limitar o uso desse material por uma futura indústria nacional de ímãs.
- Concentração. Segundo o levantamento, poucas empresas, a maioria estrangeiras, concentram grande parte dos pedidos e dos projetos mais avançados.
- Impactos sobre territórios. Segundo a Repórter Brasil, 25% dos requerimentos se sobrepõem ou ficam a até 10 km de unidades de conservação ou de comunidades tradicionais. Um exemplo é o Quilombo Família Magalhães, em Goiás, cujo território coincidia em parte com áreas do Projeto Carina. A Aclara afirma que decidiu excluir essas áreas e que elas “permanecerão fora do empreendimento”.
Há também uma posição intermediária, que aparece no próprio governo. Carlos Leonardo Durans, diretor do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), disse à Repórter Brasil que “o passaporte para atuar no nosso país é o compromisso real com o desenvolvimento conjunto, para agregação de valor”. A Brazilian Rare Earths, com a refinaria planejada na Bahia, é um exemplo de empresa estrangeira que promete fazer a separação aqui.
O que a nova lei muda
A Lei 15.506/2026, sancionada em 16 de setembro, não proíbe nem limita a participação estrangeira. Ela cria, porém, um mecanismo de triagem: o conselho criado pela lei (Cimce) e a ANM podem ter de homologar, ou seja, aprovar, operações como:
- a mudança de controle, direta ou indireta, de empresas com direitos minerários de minerais críticos e estratégicos;
- a “participação relevante ou influência significativa de pessoas jurídicas estrangeiras” nessas empresas;
- contratos e parcerias internacionais de fornecimento desses minerais;
- a venda ou a cessão de títulos minerários.
A lei também permite vincular a exportação a compromissos de agregação de valor e exigir informações sobre o volume, o destino e o beneficiário final do que é exportado.
O mecanismo já está em uso. Segundo o comunicado da Lynas e da Meteoric, a compra do Projeto Caldeira depende da aprovação do conselho para a mudança de controle. Mas há lacunas: segundo análise do escritório Demarest, o decreto que regulamentou o conselho não definiu critérios objetivos para conceitos como “participação relevante” e “influência significativa”. Na prática, ainda não se sabe com clareza quais negócios precisarão passar pelo conselho.
E agora?
Com a reeleição de Lula, em 25 de outubro, alguns pontos vão mostrar para onde o setor caminha:
- A primeira decisão sobre Caldeira. Será um teste de como o conselho trata uma troca de controle entre duas empresas estrangeiras e se vai cobrar algum compromisso de processamento no Brasil.
- A regulamentação da triagem. Critérios mais claros vão dizer quais negócios precisam de aprovação e o que pode ser exigido das empresas.
- Onde as fábricas de separação serão construídas. Camaçari, Poços de Caldas, Louisiana, Malásia: as decisões das empresas nos próximos anos vão dizer quanto do valor fica no país.
- Os conflitos territoriais. Com milhares de pedidos de pesquisa, o licenciamento e a consulta às comunidades seguem no centro do debate.
A discussão já não é tanto sobre deixar ou não as empresas estrangeiras entrarem, e sim sobre as condições em que elas operam. O MineraMente vai acompanhar cada passo.
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Fontes
- Repórter Brasil e Associated Press – Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no Brasil (20/8/2026)
- Planalto – Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026 (Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos)
- Demarest Advogados – Lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos é sancionada; governo regulamenta o CIMCE (18/9/2026)
- USA Rare Earth – USA Rare Earth announces definitive agreement to acquire Serra Verde, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (20/4/2026)
- USA Rare Earth – USA Rare Earth Completes Combination with Serra Verde Group, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (4/9/2026)
- Lynas Rare Earths e Meteoric Resources – Lynas Rare Earths to acquire Meteoric Resources, comunicado conjunto à ASX (1/10/2026)
- Brazilian Rare Earths – Rocha da Rocha Scoping Study, comunicado à ASX (13/8/2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths
- Aclara Resources – Estudo de pré-viabilidade do Projeto Carina, comunicado via Stockwatch (6/11/2025)
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