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Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa

Do cimento da parede ao celular no bolso: quais minerais estão na casa, na cozinha, no carro e na comida, com dados e fontes.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

8 min de leitura

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Peças de um celular antigo desmontado sobre fundo branco: carcaças metálicas rosadas, bateria, tela, teclado, placa de circuito e pequenos parafusos
Um celular desmontado: carcaça metálica, bateria, tela, placa de circuito e alto-falante dependem de materiais que vêm da mineração. Imagem: Medvedev · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

A mineração no dia a dia está mais perto do que parece. O cimento da parede, o vidro da janela, a lata de refrigerante, o adubo que ajudou a colher o feijão e a bateria do celular dependem de algo que saiu de uma mina, de uma pedreira ou de uma salina. Este guia percorre a casa, cômodo por cômodo, e mostra quais minerais estão em cada objeto e para que servem.

Em resumo

  • Na construção, os minerais aparecem em grande volume: brita, areia, calcário, argila e gesso viram concreto, tijolo, piso e reboco.
  • Na cozinha estão o sal, o vidro (feito com areia de sílica e outros minerais), o alumínio das latas e o aço dos eletrodomésticos.
  • A comida depende de fertilizantes feitos com fosfato e potássio, e o Brasil importa a maior parte do que usa.
  • Um celular reúne dezenas de matérias-primas minerais: cobre, estanho, lítio, grafita, tântalo, terras raras e outras.
  • Reciclar reduz a necessidade de minerar, mas não a elimina.

Por que tanta coisa vem das minas?

Quase todo objeto é feito de matéria-prima que foi cultivada (como madeira e algodão), derivada do petróleo (como muitos plásticos) ou extraída de rochas e minerais. Esse terceiro grupo é o da mineração. Ele inclui metais, como ferro, cobre e alumínio, e também os chamados minerais industriais, como areia, calcário, argila, gesso, sal e talco, que quase nunca aparecem na notícia, mas estão por toda parte.

Uma observação sobre os números deste texto: muitos dados detalhados de uso vêm do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que publica todo ano um levantamento por mineral. As porcentagens refletem o mercado americano em 2025 e servem para mostrar os usos de cada mineral. No Brasil, as proporções podem ser diferentes.

Na estrutura da casa

O concreto é uma mistura de cimento, água, areia e brita (pedra britada). Todos os ingredientes sólidos saem da mineração:

  • Brita: segundo o USGS, cerca de 70% da pedra britada produzida nos Estados Unidos em 2025 foi calcário e dolomito. Desse total, 72% foi usado como agregado na construção, principalmente em estradas, e 17% na fabricação de cimento.
  • Areia e cascalho: cerca de 42% da areia e do cascalho de construção americanos viraram agregado para concreto.
  • Gesso: é usado na fabricação de cimento, em placas de drywall e em gesso de reboco. O USGS afirma que o gesso “não tem substituto prático” na fabricação do cimento portland.
  • Argila: a argila comum vai para tijolos (43% do uso nos EUA), e um tipo chamado ball clay vai, na maior parte, para pisos e azulejos.
  • Feldspato: entra na fabricação de vidro plano, revestimentos cerâmicos e louças sanitárias, como pias e vasos.
Paredão de granito claro cortado em blocos numa pedreira, com vegetação e terra avermelhada no alto
Pedreira de granito no sopé do Morro do Anhangava, no Paraná.Imagem: YuriNikolai · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

No Brasil, esses materiais também pesam muito. Em abril de 2026, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Sousa, afirmou, segundo a Agência iNFRA, que o país comercializa um volume de agregados como areia, brita e argila maior, em toneladas, que o de minério de ferro, embora com valor comercial bem menor. Cada um deles aparece em Minerais na construção civil: areia, brita, calcário e companhia. Para entender como uma pedreira ou uma mina sai do papel, leia Como funciona uma mina: da descoberta ao fechamento.

Na cozinha

Objeto Mineral ou minério Para que serve
Sal de cozinha Sal-gema ou sal marinho Tempero e conservação de alimentos
Copos, potes e garrafas de vidro Areia de sílica, barrilha (carbonato de sódio) e feldspato Matéria-prima do vidro
Latas e papel-alumínio Bauxita Minério de onde se obtém o alumínio
Geladeira, fogão e talheres Minério de ferro, zinco e níquel Aço, aço galvanizado e aço inoxidável
Pratos e azulejos Argila, caulim e feldspato Cerâmica

Alguns detalhes, segundo o USGS: nos Estados Unidos, 45% da barrilha foi para a fabricação de vidro em 2025, e embalagens responderam por 24% do consumo de alumínio. O sal tem usos bem além da mesa: a indústria química, que produz cloro e soda cáustica, ficou com cerca de 42% das vendas americanas, e o degelo de estradas com 37%.

O aço começa no minério de ferro. O USGS lembra que a única fonte de ferro primário é o minério de ferro, e que 98% do minério produzido nos EUA foi para a indústria do aço. O zinco é usado principalmente para galvanizar o aço, uma camada que protege contra a ferrugem, e o níquel vai sobretudo para o aço inoxidável e outras ligas.

No prato: fertilizantes

Talvez a ligação mais importante entre mineração e dia a dia seja a comida. As plantas precisam de nitrogênio, fósforo e potássio. Os dois últimos vêm, em geral, de minas:

  • Fósforo: mais de 95% da rocha fosfática extraída nos EUA virou ácido fosfórico, usado para fazer fertilizantes e suplementos para ração animal.
  • Potássio: cerca de 85% das vendas de potássio nos EUA foram para a indústria de fertilizantes.

O Brasil é um grande produtor agrícola, mas depende muito de fertilizantes importados. Segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, lançado pelo governo federal em 2022 com dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda, entidade do setor), mais de 80% dos fertilizantes consumidos no país em 2020 vieram do exterior. No potássio, a dependência externa chegou a 96,4% naquele ano, e o Brasil é o segundo maior consumidor mundial desse nutriente, atrás da China. O plano cita a mina de Taquari-Vassouras, em Sergipe, como o único parque produtivo nacional de potássio. Veja mais em Os minerais que alimentam a agricultura: potássio, fosfato e calcário.

No celular

Um celular é uma pequena coleção de minerais. Segundo o USGS, mais da metade dos componentes de um aparelho móvel, incluindo eletrônica, tela, bateria e alto-falantes, é feita de materiais minerados ou semiprocessados.

Parte do celular Mineral ou elemento Função
Tela Sílica, potássio, índio e estanho Vidro resistente e circuitos transparentes
Circuitos Cobre, prata, silício e estanho Conduzir eletricidade e soldar componentes
Luz da tela Gálio (obtido na produção de alumínio a partir da bauxita) LEDs
Capacitores Tântalo Armazenar carga elétrica
Vibração Tungstênio Dar peso ao motor de vibração
Bateria Lítio e grafita Cátodo e ânodo da bateria
Alto-falante e microfone Terras raras Ímãs

O cobre é o metal presente em maior quantidade no aparelho. E o Brasil aparece no mapa: em 2014, segundo o USGS, o país estava entre as principais fontes mundiais de tântalo. Para saber mais sobre os ímãs, leia Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

Na garagem

O carro também é cheio de mineração. Nos EUA, o setor de transportes respondeu por 36% do consumo de alumínio e por 18% do uso de cobre e ligas de cobre (este último, segundo dados da Copper Development Association, entidade do setor, citados pelo USGS). O talco vai para cerâmicas, incluindo os catalisadores automotivos, e a grafita natural aparece em lonas de freio.

Nos carros elétricos, entra em cena a bateria. Segundo o USGS, as baterias responderam por cerca de 88% do uso global de lítio em 2025, e as baterias de íon-lítio são o principal uso do cobalto no mundo.

Nos outros cantos da casa

  • Tinta da parede: o dióxido de titânio é um pigmento branco, e seus principais usos são tintas, plásticos e papel.
  • Papel e revistas: o caulim, uma argila branca, é usado como cobertura e carga no papel.
  • Plásticos: o maior uso do talco nos EUA (36%) foi em plásticos.
  • Areia de gato: quase metade da bentonita americana (48%) virou absorvente para dejetos de animais de estimação.

E o outro lado da conta?

Tudo isso tem um custo. Extrair minerais abre cavas, gera rejeitos e pode afetar rios e comunidades vizinhas. Por isso, a pergunta útil não é se precisamos de mineração, e sim como ela é feita, fiscalizada e encerrada. Leia também Mitos e verdades sobre a mineração: o que é exagero e o que é real.

A reciclagem ajuda. Em 2025, o alumínio recuperado de sucata velha equivalia a cerca de 28% do consumo aparente dos EUA, e o vidro reciclado reduz o uso de feldspato nas fábricas de embalagens. Mas reciclar não cobre toda a demanda, que segue crescendo, especialmente para baterias.

Perguntas frequentes

Quais minerais estão dentro de casa?

Os principais são os da construção: calcário (no cimento), areia, brita, argila, gesso e feldspato. Na cozinha aparecem sal, vidro, alumínio e aço. Em tintas, papel e plásticos estão dióxido de titânio, caulim e talco.

Quais minerais existem num celular?

Segundo o USGS, o celular usa cobre, silício, estanho, índio, gálio, tântalo, tungstênio, lítio, grafita, prata e terras raras, entre outros. Mais da metade dos componentes é feita de materiais minerados ou semiprocessados.

A comida depende da mineração?

Sim. Fertilizantes de fósforo e de potássio são feitos a partir de minerais extraídos de minas. Segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, o Brasil importou mais de 80% dos fertilizantes que consumiu em 2020.

Qual é o mineral mais usado no dia a dia?

Em volume, os agregados da construção, como brita e areia, estão entre os destaques. No Brasil, segundo o diretor-geral da ANM, eles são comercializados em quantidade maior, em toneladas, que o minério de ferro.

Reciclar resolve a necessidade de minerar?

Reduz, mas não resolve. Nos EUA, o alumínio recuperado de sucata velha equivalia a cerca de 28% do consumo em 2025. O restante precisou vir de outras fontes, como a produção a partir do minério.

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Fontes

  1. USGS – A World of Minerals in Your Mobile Device (General Information Product 167, setembro de 2016)
  2. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Stone (Crushed)
  3. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Sand and Gravel (Construction)
  4. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Gypsum
  5. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Clays
  6. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Feldspar and Nepheline Syenite
  7. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Soda Ash
  8. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Salt
  9. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Aluminum
  10. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Iron Ore
  11. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Zinc
  12. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Nickel
  13. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Copper
  14. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lithium
  15. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Cobalt
  16. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Graphite (Natural)
  17. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Talc and Pyrophyllite
  18. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Titanium and Titanium Dioxide
  19. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Phosphate Rock
  20. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Potash
  21. Governo Federal (SAE) – Plano Nacional de Fertilizantes 2050 (março de 2022)
  22. Agência iNFRA – ANM defende desburocratização no tratamento de minerais da construção civil (14/4/2026)

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