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Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas

O que é o ímã de neodímio-ferro-boro, quem o inventou, por que é tão forte, onde é usado, por que leva disprósio e térbio e por que a China domina a produção.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Dezenas de pequenas esferas metálicas prateadas, presas umas às outras pela força magnética, formando uma estrela de seis pontas sobre uma superfície clara
Pequenas esferas magnéticas de neodímio arranjadas em forma de estrela. Imagem: Visitor7 · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

O ímã de neodímio é uma liga de neodímio, ferro e boro, conhecida pela sigla NdFeB. Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), é o ímã mais forte disponível no mercado. Essa força em pouco espaço explica por que ele está no motor da maioria dos carros elétricos, no gerador de muitas turbinas eólicas e em objetos pequenos, como alto-falantes e discos rígidos.

Em resumo

  • O ímã de neodímio (NdFeB) tem cerca de 30% de terras raras, principalmente neodímio e praseodímio. O resto é ferro e boro.
  • Foi criado no começo dos anos 1980, de forma independente, pela Sumitomo, no Japão, e pela General Motors, nos Estados Unidos.
  • Pequenas adições de disprósio e térbio ajudam o ímã a não perder força em temperaturas altas, como as de um motor de carro elétrico.
  • A China responde por quase 95% da produção mundial de ímãs permanentes, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
  • A reciclagem ainda é pequena, e as alternativas existem, mas costumam ser menos eficientes ou mais complexas.

O que é o ímã de neodímio

Um ímã permanente é uma peça que mantém o próprio campo magnético sem precisar de corrente elétrica. O de neodímio é o mais potente dessa família.

Segundo o relatório do DOE sobre a cadeia desses ímãs, publicado em fevereiro de 2022, as terras raras somam cerca de 30% da massa do ímã: além do neodímio, entra o praseodímio, outra terra rara leve. O restante é ferro e boro.

Há dois tipos principais:

  • Sinterizado: é um bloco sólido e denso, indicado para condições mais severas e temperaturas mais altas. É o tipo usado em motores de carros elétricos e em geradores eólicos e, segundo o DOE, representava cerca de 93% do mercado de ímãs NdFeB.
  • Ligado (ou aglomerado): as partículas magnéticas são unidas por uma resina plástica. Costuma ser mais fraco e quebradiço, mas permite formas complicadas.

Se você quer entender primeiro o que são as terras raras, vale ler Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

Quem inventou o ímã de neodímio

Antes dele, o ímã mais forte era o de samário-cobalto, desenvolvido em 1969, segundo a Honda Foundation. Nos anos 1970, a alta do preço do cobalto praticamente travou as pesquisas com esse material, segundo a revista IEEE Spectrum.

A saída veio de dois lugares ao mesmo tempo. Masato Sagawa, da japonesa Sumitomo, e John Croat, do laboratório de pesquisa da General Motors, nos Estados Unidos, chegaram de forma independente à liga de neodímio, ferro e boro. As duas empresas registraram patentes no começo de 1982, e os dois grupos apresentaram seus resultados na mesma conferência, em Pittsburgh, em 1983, segundo a IEEE Spectrum.

Cada um seguiu um caminho de fabricação. Sagawa desenvolveu o processo de sinterização, e Croat, o de solidificação rápida, que deu origem aos ímãs ligados. Em 2023, os dois receberam o Prêmio Honda pela invenção daquele que a fundação descreve como o ímã permanente mais poderoso do mundo.

Por que ele é tão forte

A resposta está na estrutura do cristal. No composto Nd₂Fe₁₄B, o magnetismo dos átomos prefere fortemente apontar em uma única direção. Essa preferência se chama anisotropia magnética e, no NdFeB, é excepcionalmente alta. Por isso o material resiste muito a ter a magnetização invertida, que é o que se espera de um bom ímã permanente.

Na prática, isso significa muita força magnética em pouco volume. Segundo o DOE, a densidade de energia magnética do NdFeB em temperaturas de até cerca de 180 °C permite fazer componentes menores e mais leves, ou mais eficientes com o mesmo tamanho. Para Sagawa, sem esse ímã teria sido difícil miniaturizar o disco rígido de computador.

O papel do disprósio e do térbio

O ponto fraco do ímã de neodímio é o calor: em temperaturas altas, ele perde a magnetização com mais facilidade. É aí que entram duas terras raras pesadas: o disprósio (Dy) e o térbio (Tb).

Segundo o DOE, adições de 0,5% a 11% de Dy ou Tb melhoram a resistência à desmagnetização acima de 120 °C, mas encarecem o ímã, porque o disprósio está entre as terras raras mais caras. Motores de carros elétricos trabalham quentes e precisam desses ímãs reforçados. Já discos rígidos e alto-falantes usam pouco ou nenhum disprósio.

A indústria tenta economizar esses elementos. Segundo o DOE, uma técnica de fabricação chamada difusão em contorno de grão pode reduzir pela metade o teor de terras raras pesadas, e empresas como a Toyota já desenvolveram ímãs resistentes com pouco ou nenhum disprósio.

Onde o ímã de neodímio é usado

O DOE lista turbinas eólicas, motores de veículos elétricos, discos rígidos, celulares, alto-falantes, motores industriais, ferramentas elétricas e bicicletas elétricas. Em 2022, eletrônicos e motores industriais eram a maior parte da demanda, mas carros elétricos e energia eólica cresciam.

Carros elétricos

Na maior parte dos carros elétricos e híbridos, o motor que move as rodas é do tipo síncrono com ímãs permanentes: o DOE estimava que de 90% a 100% deles usariam esse motor em 2025. Esse tipo é preferido por ser mais leve e compacto, mais eficiente e ter mais torque. Cada motor de carro elétrico usa, em geral, de 1 a 2 kg de material magnético. E o ímã não está só no motor principal: um carro híbrido pode ter cerca de 100 motores, grandes e pequenos, segundo a Honda Foundation.

Turbinas eólicas

Nem toda turbina eólica usa ímã de terras raras. O gerador mais comum trabalha com uma caixa de engrenagens e não leva esses ímãs, explica o DOE.

Os ímãs de neodímio aparecem nas turbinas de acionamento direto (direct drive), em que o rotor gira o gerador sem caixa de engrenagens. Esse tipo é o preferido no mar (eólica offshore), porque exige menos manutenção, é eficiente e mais leve, o que permite turbinas maiores. Segundo o DOE, cada megawatt de capacidade usa de 2,7 a 3,2 toneladas de ímã permanente.

Turbina eólica branca em montagem, com o cubo e as pás suspensos ao lado da nacele, onde aparece o grande anel do gerador
Montagem de uma turbina eólica de acionamento direto, sem caixa de engrenagens, com gerador de ímãs permanentes. Foto feita nos Estados Unidos, em 2012.Imagem: Eileen at OE · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Quem produz os ímãs de neodímio

A produção é ainda mais concentrada do que a mineração. Segundo relatório da IEA lançado em abril de 2026, a China responde por quase 95% da produção de ímãs permanentes do mundo. Duas décadas antes, a participação chinesa era de cerca de metade. Já os Estados Unidos produziam menos de 1% dos ímãs NdFeB do mundo, segundo o DOE (dados de 2020).

Essa dependência virou preocupação de governo. O USGS registra que, em abril de 2025, a China passou a controlar a exportação de sete terras raras, entre elas o disprósio e o térbio, justamente as que dão resistência ao calor. O USGS também informa que, entre as possíveis compras do estoque estratégico do governo americano no ano fiscal de 2025, estavam 450 toneladas de blocos de ímã de neodímio-ferro-boro.

Para entender o contexto dessa disputa, leia Por que todo mundo está falando de terras raras?.

Dá para reciclar?

Dá, mas ainda pouco. O DOE explica que a maior parte da reciclagem atual aproveita os resíduos do corte dos ímãs nas próprias fábricas. Já a recuperação de ímãs de aparelhos descartados só é feita em pequena escala.

O potencial é grande. Segundo a IEA, a reciclagem poderia reduzir em até 35% a necessidade de terras raras de mina até 2050.

Existem alternativas ao ímã de neodímio?

Existem, com limitações. Segundo o USGS, há substitutos para muitas aplicações das terras raras, mas eles costumam ser menos eficientes. As principais saídas são:

  • Ímãs de ferrite e ímãs intermediários: os ímãs de ferrite são bem mais fracos que o NdFeB. Segundo o DOE, pesquisas buscam ímãs com força intermediária entre os dois, inclusive trocando parte do neodímio e do praseodímio por cério ou lantânio, terras raras mais abundantes e baratas.
  • Motores sem ímãs: a Renault usa em carros elétricos, desde o modelo Zoe, motores síncronos de excitação externa, que têm enrolamentos de cobre no rotor no lugar dos ímãs. A BMW adotou a mesma solução. Esses motores reduzem o custo de material, mas são mais complexos de fabricar, e os motores de ímãs permanentes continuam dominantes, segundo análise da IDTechEx publicada pela revista MOTOR.
  • Turbinas com caixa de engrenagens: dispensam os ímãs, mas não são as ideais para grandes turbinas no mar, segundo o DOE.

O DOE resume a dificuldade: trocar o NdFeB por outro tipo de ímã é pouco provável com a tecnologia atual, porque nenhum outro tem densidade de energia parecida.

Cuidado: ímã forte não é brinquedo

A força que torna o ímã de neodímio útil também o torna perigoso para crianças. A Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos Estados Unidos (CPSC) alerta que ímãs engolidos podem se atrair entre si, ou a outro objeto de metal, e ficar presos no sistema digestivo. Isso pode causar perfurações, torção ou obstrução do intestino, infecção e até morte. Por isso, a recomendação é manter ímãs pequenos e soltos longe das crianças.

Perguntas frequentes

Do que é feito o ímã de neodímio?

De uma liga de neodímio, ferro e boro (NdFeB), com cerca de 30% de terras raras. Ímãs para altas temperaturas também levam disprósio ou térbio.

Por que o ímã de neodímio é tão forte?

Por causa da estrutura do cristal Nd₂Fe₁₄B, que mantém o magnetismo dos átomos alinhado em uma direção. O resultado é muita força em pouco volume.

Todo carro elétrico usa ímã de neodímio?

A maioria usa, em motores síncronos de ímãs permanentes. Mas há exceções: algumas montadoras, como a Renault e a BMW, usam motores com enrolamentos de cobre no rotor no lugar dos ímãs.

Toda turbina eólica tem ímã de neodímio?

Não. O tipo de gerador mais comum usa caixa de engrenagens e não leva ímãs de terras raras. Eles aparecem principalmente nas turbinas de acionamento direto, preferidas no mar.

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Fontes

  1. Departamento de Energia dos EUA (DOE) – Rare Earth Permanent Magnets: Supply Chain Deep Dive Assessment (24/2/2022)
  2. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
  3. IEEE Spectrum – The Magnet That Made the Modern World, de Glenn Zorpette (21/6/2022)
  4. Honda Foundation (via Kyodo News PR Wire) – anúncio do Prêmio Honda 2023 para Masato Sagawa e John Croat (4/10/2023)
  5. Honda – Honda Foundation anuncia o Prêmio Honda 2023 (29/9/2023)
  6. Science Japan (JST) – Inventores do ímã de neodímio recebem o Prêmio Honda (dezembro de 2023)
  7. Indian Chemical News – reportagem sobre o relatório da IEA Rare Earth Elements: Pathways to Secure and Diversified Supply Chains (9/4/2026)
  8. Anadolu Agency – reportagem sobre relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre terras raras (8/4/2026)
  9. Crystallography365 (Ano Internacional da Cristalografia 2014) – Neo-mag: the strongest permanent magnet of them all!, de Kirrily Rule
  10. MOTOR / IDTechEx – Rare Earth Free Motors Take Back Seat in EVs (28/5/2024)
  11. CPSC (Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos EUA) – alerta sobre ímãs de neodímio de alta potência (23/5/2024)

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