Por que a China domina as terras raras (e o que outros países estão fazendo)
Como a China passou a controlar a mineração, o refino e os ímãs de terras raras, quando usou esse poder e o que EUA, Austrália, Japão e Europa fazem.

A China domina as terras raras porque passou quatro décadas construindo a cadeia inteira, da mina ao ímã. Combinou um depósito gigante, custos baixos, regras ambientais frouxas no passado, apoio do Estado e escala industrial. Em 2025, o país extraiu cerca de 70% das terras raras do mundo e fez cerca de 85% do refino. Estados Unidos, Austrália, Japão, Europa e Brasil correm atrás, mas a tarefa leva anos.
Em resumo
- Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a China produziu cerca de 270 mil das 390 mil toneladas de terras raras mineradas no mundo em 2025.
- Nas etapas seguintes, a fatia é maior: cerca de 85% do refino em 2025 (eram mais de 90% em 2023) e quase 95% dos ímãs permanentes, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
- Até meados dos anos 1980, o maior produtor era uma mina nos Estados Unidos. A virada veio entre os anos 1980 e 1990.
- A China já usou esse poder como pressão: com o Japão em 2010 e com controles de exportação em 2023 e 2025.
- Outros países investem em minas, refinarias, estoques e reciclagem, mas a IEA calcula que serão precisos cerca de US$ 60 bilhões na próxima década.
Quanto a China domina hoje
Terras raras são 17 elementos químicos usados principalmente em ímãs de motores elétricos e turbinas eólicas (o básico está em Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa). A cadeia vai da mina ao refino, que separa os elementos, e daí aos metais, ligas e ímãs. A China lidera todas as etapas, e a fatia cresce perto do produto final. No refino, ela começou a cair: passou de mais de 90% em 2023 para cerca de 85% em 2025, segundo a IEA.
Como começou: Bayan Obo e a virada dos anos 1990
O centro da história é Bayan Obo, na Mongólia Interior, no norte da China. Segundo o USGS, terras raras foram identificadas ali em 1927, e a produção de concentrados começou em 1957. É um depósito de ferro, nióbio e terras raras com reservas de pelo menos 40 milhões de toneladas de óxidos (estimativa publicada pelo USGS em 2002).
Mas, de 1965 a meados dos anos 1980, a principal fonte mundial era a mina de Mountain Pass, na Califórnia, e os EUA eram praticamente autossuficientes. Depois de uma transição, a “era chinesa” começou por volta de 1991, segundo o USGS. Entre 1990 e 2000, a produção chinesa saltou de cerca de 16 mil para 73 mil toneladas, enquanto a do resto do mundo caiu de 44 mil para 16 mil. A fatia da China passou de 27% em 1990 para mais de 90% em 2008.
Uma frase famosa resume essa visão: “O Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras”. Ela é atribuída ao líder chinês Deng Xiaoping, em 1992. Um artigo da revista americana The National Interest a situa num discurso de janeiro de 1992, citando a Rádio Nacional da China, mas outras fontes apontam ocasiões diferentes, e não encontramos transcrição oficial.
Por que a China ganhou a corrida
Custos mais baixos. Em 2002, o USGS apontou custos de mão de obra e de regulação muito menores na China do que nos EUA, além de depósitos favoráveis em número, tamanho e teor de terras raras pesadas.
Regras ambientais menos rígidas no passado. Segundo relatório do USGS de 2011, parte da produção vinha de mineradores sem licença e com tecnologia obsoleta, que causaram danos ambientais significativos em Guangdong, Jiangxi e Sichuan. Muitos desses depósitos do sul são de argila iônica, cujo impacto já explicamos. Nos EUA, problemas ambientais com a tubulação de efluentes de Mountain Pass levaram ao fechamento da sua unidade de separação, registrou o USGS.
O Estado no comando. Em 1990, a China declarou as terras raras mineral estratégico e protegido. Estrangeiros ficaram proibidos de minerar e só podiam separar em sociedade com empresas chinesas. O governo fixou cotas de produção e de exportação. Nos anos 1990, devolvia impostos a quem exportava; depois inverteu a lógica, eliminou esse incentivo em 2005 e passou a cobrar imposto de exportação em 2007.
Refino e ímãs. A China não ficou só na mina. Em 1998, um programa nacional de pesquisa básica pôs os materiais de terras raras entre suas prioridades, segundo o USGS. Há duas décadas, o país fazia cerca de metade dos ímãs permanentes do mundo; hoje faz quase 95%, segundo a IEA. Veja por que esses ímãs importam em Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas.
Grandes grupos estatais. O governo incentivou fusões e reduziu o setor a seis grandes grupos estatais. Em dezembro de 2021, os negócios de terras raras da Chinalco, da China Minmetals e do Ganzhou Rare Earth Group formaram o China Rare Earth Group, controlado pelo governo central, segundo o China Daily. O objetivo, segundo a consultoria China Briefing, era ganhar poder sobre os preços.
Quando as terras raras viraram instrumento de pressão
2010: o caso do Japão. Em setembro, após a prisão de um capitão de pesqueiro chinês perto das ilhas Senkaku (Diaoyu, para os chineses), empresas japonesas relataram que a China suspendera os embarques de terras raras para o Japão. O Ministério do Comércio chinês negou a proibição, segundo a agência AP. Uma análise do Harvard National Security Journal tratou o caso como aparente retaliação, com cerca de um mês de duração.
2012 a 2015: a disputa na OMC. EUA, União Europeia e Japão contestaram as cotas e os impostos chineses de exportação. Em 2014, a Organização Mundial do Comércio concluiu que as cotas serviam à política industrial, e não à conservação dos recursos, como a China alegava. Em 2015, a China informou tê-las eliminado.
2023: tecnologia. Em dezembro, a China proibiu exportar tecnologias para extrair e separar terras raras, produzir metais e ligas e fabricar alguns ímãs, alegando segurança nacional e interesse público, segundo a Reuters.
2025 e 2026: os elementos. Em abril de 2025, a China passou a controlar a exportação de sete terras raras, entre elas disprósio e térbio. Em outubro, ampliou a lista e, em novembro, suspendeu essa ampliação por um ano, mantendo os controles de abril, segundo o USGS. A IEA diz que os controles causaram interrupções de curto prazo e que, se aplicados por completo, poriam em risco até US$ 6,5 trilhões em atividade econômica por ano fora da China. Em janeiro de 2026, novas restrições a produtos de uso civil e militar, incluindo terras raras, miraram o Japão, segundo o centro de estudos americano CSIS.
O argumento oficial chinês é de segurança nacional e de proteção dos recursos e do meio ambiente. O dos compradores, o risco de depender de um só fornecedor.
O que outros países estão fazendo
Estados Unidos. Os EUA extraíram cerca de 51 mil toneladas em 2025 (USGS). Em julho de 2025, a MP Materials, que opera Mountain Pass, fechou acordo com o Departamento de Defesa: o governo comprou US$ 400 milhões em ações preferenciais, fixou por dez anos um preço mínimo de US$ 110 por quilo para os produtos de neodímio-praseodímio da empresa e garantiu compradores, por dez anos, para toda a produção de uma nova fábrica de ímãs, prevista para 2028, segundo a empresa. Ligada ao acordo, a MP se comprometeu a parar de vender para a China. Além disso, o governo previa novas compras para seu estoque estratégico, segundo o USGS.
Austrália. Minerou cerca de 29 mil toneladas em 2025, segundo o USGS. A Lynas extrai minério em Mt Weld e o separa numa fábrica na Malásia. Em maio de 2025, anunciou o primeiro disprósio separado e se apresenta como a única produtora comercial de terras raras pesadas separadas fora da China. A Iluka constrói uma refinaria em Eneabba, com empréstimo de A$ 1,65 bilhão do governo e início previsto para meados de 2027, segundo a empresa.
Japão. Depois de 2010, investiu em refino e reciclagem em casa e em minas e processamento no exterior, segundo o CSIS, incluindo US$ 250 milhões na Lynas em 2011. Em outubro de 2025, a trading japonesa Sojitz começou a importar terras raras pesadas da Lynas, segundo a Reuters. Ainda assim, a China respondia por 63% das importações japonesas de metais de terras raras em 2024, segundo o CSIS.
União Europeia. A Lei Europeia de Matérias-Primas Críticas (Critical Raw Materials Act) vigora desde 23 de maio de 2024. As metas para 2030 são extrair no bloco ao menos 10% do consumo anual, processar 40%, reciclar 25% e não depender de um só país de fora para mais de 65%. Em outubro de 2026, a Comissão Europeia escolheu 46 novos projetos estratégicos, quatro de terras raras.
Brasil. Tem a segunda maior reserva do mundo, cerca de 11 milhões de toneladas, mas produziu só cerca de 2 mil toneladas em 2025, segundo o USGS. Veja os projetos em Terras raras no Brasil: onde estão e quais projetos existem, a nova Lei 15.506/2026 e a compra do Projeto Caldeira, em Minas Gerais, pela própria Lynas. O debate político está em Por que todo mundo está falando de terras raras?.
Por que diversificar leva tempo
A IEA estima que serão necessários cerca de US$ 60 bilhões na próxima década para diversificar a cadeia e conclui que nenhum país consegue montá-la sozinho. Se os projetos planejados avançarem, a fatia chinesa no refino pode cair para cerca de 70% em 2035, segundo a agência. Mesmo assim, os projetos fora da China ainda ficam bem abaixo do necessário para a demanda prevista. Como minas e refinarias levam anos para ficar prontas, a dependência tende a cair aos poucos.
Perguntas frequentes
A China tem a maior reserva de terras raras do mundo?
Sim. Segundo o USGS, são cerca de 44 milhões de toneladas, de um total mundial de mais de 75 milhões. O Brasil vem em segundo, com cerca de 11 milhões.
Desde quando a China domina as terras raras?
Desde o começo dos anos 1990. Antes, a maior fonte mundial era a mina de Mountain Pass, nos EUA. Em 2008, a China já respondia por mais de 90% da produção, segundo o USGS.
O que são os controles de exportação de terras raras da China?
São regras que exigem licença para vender ao exterior alguns elementos e produtos. Em abril de 2025, a China incluiu sete terras raras, entre elas disprósio e térbio.
Deng Xiaoping disse mesmo que “a China tem terras raras”?
A frase “o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras” é atribuída a ele, em 1992. As fontes divergem sobre a ocasião, e não encontramos transcrição oficial.
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Fontes
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
- USGS – China's Rare-Earth Industry, de Pui-Kwan Tse, Open-File Report 2011-1042 (2011)
- USGS – Rare Earth Elements: Critical Resources for High Technology, Fact Sheet 087-02 (2002)
- Anadolu Agency – reportagem sobre o relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre terras raras (8/4/2026)
- Investment Monitor – reportagem sobre o Global Critical Minerals Outlook 2026, da IEA (16/7/2026)
- Indian Chemical News – reportagem sobre o relatório da IEA Rare Earth Elements: Pathways to Secure and Diversified Supply Chains (9/4/2026)
- The National Interest (republicado por Andrew S. Erickson) – China's Rare Earth Dominance: How Usable a Weapon?, de Andrew S. Erickson e Gabriel B. Collins (6/6/2019)
- China Daily – State-owned enterprise seen changing rare earth market (24/12/2021)
- China Briefing – China Merges Three Rare Earths State-Owned Entities to Increase Pricing Power and Efficiency (12/1/2022)
- Associated Press (via Phys.org) – Japan: China rare-earth ban could hurt economy (28/9/2010)
- Harvard National Security Journal – On-Shoring the Production of Rare Earth Metals, de David Husband (7/3/2012)
- OMC (WTO) – DS431: China, medidas relacionadas à exportação de terras raras, tungstênio e molibdênio
- Reuters (via CNBC Africa) – China bans export of rare earth processing tech over national security (21/12/2023)
- CSIS – China's Rare Earth Campaign Against Japan, de Gracelin Baskaran e Meredith Schwartz (13/1/2026)
- Reuters (via Kitco) – Japan's Sojitz begins importing heavy rare earths from Australia (30/10/2025)
- MP Materials – anúncio da parceria com o Departamento de Defesa dos EUA (10/7/2025)
- MP Materials – relatório trimestral (Form 10-Q) enviado à SEC, segundo trimestre de 2025
- Lynas Rare Earths – Lynas achieves first separated Heavy Rare Earths production, comunicado à ASX (16/5/2025)
- Lynas Rare Earths e Meteoric Resources – Lynas Rare Earths to acquire Meteoric Resources, comunicado conjunto à ASX (1/10/2026)
- Lynas Rare Earths – About us
- Iluka Resources – Rare earths update, comunicado à ASX (22/6/2026)
- Comissão Europeia – EU secures access to diversified, affordable, and sustainable supply of critical raw materials (23/5/2024)
- Comissão Europeia – Critical Raw Materials Act
- Comissão Europeia – Commission selects 46 new Strategic Projects to bolster the EU's supply of critical raw materials (9/10/2026)
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