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Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa

O que são as terras raras, onde estão no seu dia a dia, por que a China domina o setor e o papel do Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

6 min de leitura

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Seis montes de pó de óxidos de terras raras, em tons de branco, bege, cinza e preto, sobre uma superfície de areia
Óxidos de terras raras. No sentido horário, a partir do centro, no alto: praseodímio, cério, lantânio, neodímio, samário e gadolínio. Imagem: Peggy Greb (USDA/ARS) · Domínio público · Wikimedia Commons

Elas estão no motor de um carro elétrico, na turbina de um parque eólico e no alto-falante do seu celular. Mesmo assim, pouca gente sabe o que são. As terras raras viraram assunto de notícia, de disputa entre países e de política pública no Brasil. Este guia explica, sem complicação, o que são esses elementos, para que servem e por que o Brasil está no centro da conversa.

Em resumo

  • Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, mais o escândio e o ítrio.
  • Apesar do nome, não são raras. O difícil é encontrá-las concentradas o bastante para valer a pena minerar.
  • O principal uso no mundo é na fabricação de ímãs permanentes, peças-chave de motores elétricos e turbinas eólicas.
  • A China concentra a maior parte da mineração e cerca de 85% a 90% do refino, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
  • O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, mas ainda produz pouco.

O que são terras raras

Terras raras são 17 elementos da tabela periódica com propriedades químicas muito parecidas. Pela definição da IUPAC, a entidade internacional que padroniza a nomenclatura da química, o grupo reúne os 15 lantanídeos (do lantânio, número atômico 57, ao lutécio, número 71), mais o escândio (21) e o ítrio (39).

Diagrama com os 17 elementos de terras raras: 15 lantanídeos, do lantânio ao lutécio, mais o escândio e o ítrio
Os 17 elementos de terras raras. O número no canto de cada quadro é o número atômico.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Alguns nomes do grupo aparecem com frequência no noticiário, porque são os mais usados em ímãs: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb).

Se não são raras, por que esse nome?

O nome engana. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), as terras raras são relativamente abundantes na crosta terrestre, mas concentrações que possam ser mineradas são menos comuns do que no caso da maioria dos outros bens minerais.

Na prática, o desafio tem duas partes:

  1. Encontrar depósitos em que as terras raras estejam concentradas o suficiente para a mineração ser viável.
  2. Separar os elementos uns dos outros. Como têm comportamento químico muito parecido, separá-los exige um processo industrial longo e complexo. É nessa etapa, o refino, que está boa parte do poder de quem domina o setor.

As terras raras não aparecem sozinhas na natureza: elas fazem parte de minerais. Dois exemplos citados pelo USGS são a bastnasita, minerada na Califórnia, e a monazita, obtida de areias com minerais pesados.

Quatro cristais marrons de monazita sobre um suporte de acrílico, com etiqueta de museu
Cristais de monazita, um dos minerais que contêm terras raras, expostos no Museu Mineralógico de Bonn, na Alemanha.Imagem: Ra'ike · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Para que servem as terras raras

De acordo com o USGS, o principal uso das terras raras no mundo é na fabricação de ímãs. Outros usos incluem catalisadores, baterias, cerâmicas e vidros, ligas metálicas e pós de polimento.

Os ímãs de terras raras, como os de neodímio-ferro-boro, são muito mais fortes do que os ímãs comuns do mesmo tamanho. Por isso aparecem em:

  • motores de carros elétricos;
  • turbinas eólicas;
  • eletrônicos, como alto-falantes, fones de ouvido e discos rígidos de computador.
Peça metálica com um ímã de neodímio preso a um suporte, retirada de um disco rígido de computador
Ímã de neodímio no suporte de um disco rígido (HD) de computador.Imagem: Bloodshedder (Wikipedia em inglês) · Domínio público · Wikimedia Commons

É por causa dos ímãs que as terras raras ganharam o rótulo de minerais da transição energética: carros elétricos e energia eólica dependem deles.

Quem produz terras raras no mundo

A produção é muito concentrada. Pelas estimativas do USGS para 2025:

Quantidade Observação
Produção mundial de mina cerca de 390 mil toneladas em óxidos de terras raras equivalentes
Produção da China cerca de 270 mil toneladas perto de 70% do total
Produção do Brasil cerca de 2 mil toneladas menos de 1% do total

E a concentração é ainda maior nas etapas seguintes. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China respondeu por mais de 90% do refino de terras raras nos últimos anos e por quase 95% da produção de ímãs permanentes. O relatório de 2026 da IEA aponta uma queda no refino para cerca de 85% em 2025, com o avanço de projetos nos Estados Unidos e na Malásia, segundo o site Investment Monitor. Para entender essa etapa, leia Como as terras raras são separadas.

Essa dependência ficou evidente em 2025. O USGS registra que, em abril daquele ano, a China endureceu o controle sobre a exportação de sete terras raras (samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio) e, em outubro, ampliou a lista. Em novembro, suspendeu por um ano a ampliação de outubro, mas manteve os controles de abril.

E o Brasil nessa história?

Aqui está o ponto que interessa a quem vive no Brasil. Segundo o USGS, o país tem cerca de 11 milhões de toneladas de reservas de terras raras, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China (44 milhões). O total mundial passa de 75 milhões de toneladas.

O número já foi maior nas estatísticas: edições anteriores apontavam 21 milhões de toneladas. A mudança tem explicação técnica, e a gente detalha em Quanto o Brasil tem de terras raras? Por que os números mudam.

Ter reservas, porém, é diferente de produzir. Em 2025, o Brasil respondeu por menos de 1% da produção mundial. A principal operação em atividade é a mina Pela Ema, da empresa Serra Verde, em Minaçu (GO), que produz um concentrado misto de terras raras a partir de um depósito do tipo argila iônica, segundo o site especializado Mining.com. Há ainda projetos em estudo e em licenciamento, principalmente em Minas Gerais e em Goiás.

O governo também entrou no tema. Em setembro de 2026, foi sancionada a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com incentivos para que o país não apenas extraia, mas também processe esses minerais. Veja o que muda em Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos. E, para entender por que o tema virou assunto de campanha eleitoral, leia Por que todo mundo está falando de terras raras?.

Perguntas frequentes

Terras raras são raras?

Não exatamente. Elas são relativamente abundantes na crosta terrestre. O que é raro são depósitos com concentração suficiente para a mineração ser viável, além do processo difícil de separar os elementos.

Quantos elementos são terras raras?

São 17: os 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio), mais o escândio e o ítrio.

Para que as terras raras são usadas?

O principal uso no mundo é em ímãs permanentes, presentes em motores de carros elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos. Também são usadas em catalisadores, baterias, vidros, cerâmicas, ligas metálicas e pós de polimento.

O Brasil produz terras raras?

Produz, mas ainda pouco: menos de 1% do total mundial em 2025, segundo estimativa do USGS. O Brasil tem, porém, a segunda maior reserva do mundo.

Qual país tem a maior reserva de terras raras?

A China, com cerca de 44 milhões de toneladas, segundo o USGS. O Brasil vem em segundo lugar, com cerca de 11 milhões.

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Fontes

  1. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
  2. Anadolu Agency – reportagem sobre relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre terras raras (8/4/2026)
  3. Investment Monitor – reportagem sobre o Global Critical Minerals Outlook 2026 da IEA (16/7/2026)
  4. IUPAC – Nomenclature of Inorganic Chemistry (Red Book)
  5. Mining.com – Serra Verde enters commercial production in Brazil

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