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Quanto o Brasil tem de terras raras? Por que os números mudam

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras, mas o número caiu de 21 para cerca de 11 milhões de toneladas. Entenda a revisão.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

6 min de leitura

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Duas caixas de madeira com cilindros de rocha escura retirados por perfuração, organizados em fileiras
Testemunhos de sondagem: cilindros de rocha retirados por perfuração, a base para estimar o que existe no subsolo. Foto feita na Finlândia. Imagem: kallerna · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Durante anos, a frase “o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo” veio acompanhada de um número: 21 milhões de toneladas. Hoje, as estatísticas mais recentes falam em cerca de 11 milhões. O Brasil encolheu? Não exatamente. Este guia explica de onde vêm esses números, por que eles mudaram e por que “recurso” e “reserva” não são a mesma coisa.

Em resumo

  • Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil tem cerca de 11 milhões de toneladas de reservas de terras raras, a segunda maior do mundo, atrás da China.
  • Edições anteriores apontavam 21 milhões. A redução veio de uma revisão feita pela Agência Nacional de Mineração (ANM) com base em padrões internacionais.
  • Reserva é só a parte do minério que se comprovou viável de extrair. Recurso é um conceito mais amplo. Os números mudam conforme o conhecimento sobre os depósitos avança.

O número atual

O principal levantamento internacional sobre o tema é o Mineral Commodity Summaries, publicado todo ano pelo USGS. A edição de fevereiro de 2026 traz estas reservas:

País Reservas (toneladas de óxidos de terras raras)
China 44 milhões
Brasil 11 milhões
Austrália 6,3 milhões
Rússia 3,8 milhões
Vietnã 3,5 milhões
Estados Unidos 1,9 milhão
Total mundial mais de 75 milhões

Com isso, o Brasil fica com cerca de 15% das reservas mundiais, ainda em segundo lugar.

Dois detalhes ajudam a ler a tabela:

  • Os números estão em toneladas de óxidos de terras raras equivalentes (em inglês, REO). É uma forma de padronizar: em vez de contar a rocha inteira, conta-se só o conteúdo de terras raras, expresso como óxido.
  • No caso da Austrália, o próprio USGS observa que as reservas calculadas pelo padrão australiano JORC somam 3,3 milhões de toneladas. Ou seja, até entre países a forma de contar faz diferença.

Por que o número caiu de 21 para 11 milhões

Segundo análise de pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) publicada pela revista Brasil Mineral, a ANM revisou as reservas brasileiras no Sumário Mineral 2025 (ano-base 2024), reduzindo o número de 21 milhões para 11,4 milhões de toneladas.

De acordo com a mesma análise:

  • a revisão usou os dados do Relatório Anual de Lavra (RAL) entregue pelas empresas;
  • os números passaram a seguir o padrão da Comissão Brasileira de Recursos e Reservas (CBRR), alinhado às práticas internacionais e à Resolução ANM nº 94/2022;
  • o objetivo é dar mais precisão aos dados informados.

O USGS, por sua vez, informa que revisou as reservas do Brasil na edição de 2026 com base em relatórios do governo, e passou a registrar cerca de 11 milhões de toneladas.

Em outras palavras: as terras raras não sumiram. O que mudou foi a régua. Com critérios mais rigorosos, parte do que antes era contado como reserva deixou de entrar nessa conta.

Recurso e reserva: qual é a diferença

Essa é a chave para entender a mudança. No padrão usado pela CBRR, que segue a linha internacional do CRIRSCO, os depósitos minerais são classificados em duas grandes categorias:

Recurso mineral é uma concentração de minério com perspectivas razoáveis de aproveitamento. Ele é dividido em três níveis, conforme o grau de conhecimento:

  1. Inferido: estimado com poucos dados, com mais incerteza.
  2. Indicado: com dados suficientes para uma estimativa razoável.
  3. Medido: com dados detalhados e maior confiança.

Reserva mineral é a parte do recurso indicado ou medido que, depois de estudos técnicos e econômicos, se mostrou viável de ser extraída. Ela se divide em provável e provada.

Toda reserva veio de um recurso, mas nem todo recurso vira reserva. Por isso, uma reserva costuma ser bem menor do que o recurso de onde saiu.

Um exemplo real

O Projeto Caldeira, de terras raras em argila iônica perto de Poços de Caldas (MG), mostra bem a diferença. Segundo a empresa responsável, a Meteoric Resources:

  • o recurso mineral do projeto é de cerca de 1,6 bilhão de toneladas de minério, com teor médio de 2.317 ppm de óxidos de terras raras;
  • a reserva de minério, definida no estudo de viabilidade de julho de 2026, é de 151 milhões de toneladas, com teor médio de 3.524 ppm.

O teor em “ppm” significa partes por milhão: 3.524 ppm equivalem a cerca de 0,35%. Fazendo a conta, 151 milhões de toneladas de minério com esse teor contêm por volta de 530 mil toneladas de óxidos de terras raras. É esse conteúdo, e não o peso total da rocha, que entra em estatísticas como a do USGS.

Os números ainda podem mudar?

Podem, e é normal que mudem. Reservas e recursos são estimativas que acompanham o conhecimento geológico e as condições econômicas. Eles podem:

  • aumentar, quando novas pesquisas, como as sondagens que retiram amostras de rocha do subsolo, confirmam mais minério;
  • diminuir, quando critérios ficam mais rigorosos (como nesta revisão) ou quando o preço do produto cai e parte do minério deixa de ser viável.

Por isso, ao ler uma notícia sobre reservas, vale sempre perguntar: qual é a fonte, qual é o ano e qual critério foi usado?

O que isso significa para o Brasil

Mesmo com a revisão, o Brasil segue em segundo lugar no mundo, atrás apenas da China. O desafio do país não é falta de terras raras no subsolo, e sim transformar reservas em produção e, principalmente, em processamento dentro do país. Para entender o contexto, leia Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa e Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos.

Perguntas frequentes

Quanto o Brasil tem de terras raras?

Cerca de 11 milhões de toneladas de reservas, em óxidos de terras raras, segundo o USGS (edição de 2026). É a segunda maior reserva do mundo.

Por que antes se falava em 21 milhões de toneladas?

Era o número usado em edições anteriores das estatísticas. A ANM revisou os dados com critérios alinhados aos padrões internacionais, e o total passou para cerca de 11 milhões.

O Brasil perdeu terras raras?

Não. O que mudou foi a forma de calcular. Parte do que era contado como reserva não atendia aos critérios mais rigorosos.

Qual é a diferença entre recurso e reserva mineral?

Recurso é uma concentração de minério com perspectivas razoáveis de aproveitamento. Reserva é a parte do recurso que estudos técnicos e econômicos mostraram ser viável de extrair.

Qual país tem mais terras raras?

A China, com cerca de 44 milhões de toneladas de reservas, segundo o USGS.

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Fontes

  1. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
  2. Brasil Mineral – Ainda em segundo lugar, nova estimativa traz Brasil com 15% das reservas de terras raras (análise de pesquisadores do CETEM, 6/4/2026)
  3. The Motley Fool Australia – Meteoric Resources releases Caldeira DFS (31/7/2026)
  4. Meteoric Resources – comunicado à bolsa australiana (ASX) sobre o recurso mineral do Projeto Caldeira (9/7/2026)

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