Por que todo mundo está falando de terras raras? O tema que entrou na política brasileira
Venda de mina a uma empresa americana, negociação com os EUA, nova lei e eleição: por que as terras raras viraram assunto político no Brasil.

Há poucos anos, terras raras eram assunto de geólogo e de engenheiro de minas. Em 2026, viraram tema de campanha presidencial, de negociação com os Estados Unidos e de lei aprovada no Congresso. Com a eleição decidida ontem, vale entender como esse assunto técnico chegou ao centro da política brasileira e o que muda daqui para a frente.
O que aconteceu
O tema ganhou força ao longo de 2026, com uma sequência de acontecimentos:
- Janeiro: segundo o jornal britânico Financial Times, Brasil e Estados Unidos começaram a avaliar um possível acordo de cooperação sobre terras raras. As conversas estavam em fase inicial.
- Abril: a empresa americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), a única com exploração comercial de terras raras no Brasil. O negócio foi avaliado em cerca de US$ 2,8 bilhões, pagos com US$ 300 milhões em dinheiro e o restante em ações. A operação inclui um contrato, anunciado como de 15 anos, para a compra de toda a produção de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio da primeira fase da mina por uma empresa capitalizada por agências do governo americano e por investidores privados, segundo a Agência Pública e documentos entregues pela empresa à SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA.
- Julho: a CNN Brasil revelou que uma proposta de memorando enviada pelo Departamento de Estado americano chamava o Brasil de “país X” e de “Equador”, e que as negociações não tinham avançado de forma significativa.
- Setembro: a USA Rare Earth informou ter concluído a compra da Serra Verde em 3 de setembro. No mesmo mês, foi sancionada a Lei 15.506/2026, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com incentivos para que esses minerais sejam processados no país. Explicamos a lei em Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos.
- Outubro: as terras raras foram tema da campanha. No segundo turno, realizado em 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo os dados do TSE divulgados pelo TRE-SP.
Por que importa
Três fatores explicam por que o assunto saiu dos laboratórios e foi parar nos palanques:
- A China domina o setor. Pelas estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a China produziu cerca de 270 mil das 390 mil toneladas de terras raras mineradas no mundo em 2025. Em 2025, o país também endureceu o controle sobre a exportação de vários desses elementos.
- Os Estados Unidos e outros países buscam alternativas. As terras raras são usadas em ímãs de carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. Segundo a Agência Pública, a presidente da USA Rare Earth afirmou que a compra da Serra Verde daria aos EUA acesso a insumos para a indústria de defesa.
- O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, com cerca de 11 milhões de toneladas, segundo o USGS, mas produz muito pouco. Ou seja: o país tem o que o mundo procura, mas ainda não decidiu como explorar esse potencial.
Para entender a base técnica dessa história, leia Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.
Os lados do debate
Durante a campanha, as propostas se dividiram, de forma simplificada, entre dois caminhos.
Aproximação com os Estados Unidos. Flávio Bolsonaro afirmou, em um evento de políticos conservadores nos Estados Unidos, que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos”, segundo a IstoÉ e a eixos. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que se apresentou como pré-candidato, assinou um acordo de cooperação com os EUA para mapeamento e pesquisa desses minerais em seu estado e defendeu que o Brasil deixe de ser “exportador de matéria-prima”.
Soberania e processamento no país. Lula afirmou que seu governo não vai “permitir que eles usem outra vez os minerais críticos que são do povo brasileiro”, segundo a eixos, que também informou que o governo descartou aderir a uma aliança de minerais liderada pelos EUA. A ideia de uma estatal para o setor, apelidada de Terrabrás, chegou a ser discutida e tem apoio de parlamentares de esquerda e de parte da comunidade científica, mas, segundo a IstoÉ, o governo a tem descartado oficialmente.
Os dois campos concordam em um ponto: o Brasil não deveria se limitar a exportar minério bruto. A divergência está em com quem fazer parcerias e quanto controle o Estado deve ter.
Prós e contras dos caminhos em discussão
Atrair capital estrangeiro e parcerias com os EUA
- A favor: projetos de mineração exigem muito dinheiro e anos de investimento. Parceiros externos trazem capital, tecnologia e mercado garantido para a produção.
- Contra: contratos que destinam toda a produção dos elementos mais valiosos a um único comprador por muitos anos podem limitar a capacidade do país de vender para outros mercados ou de usar esses minerais na própria indústria. Um levantamento da Repórter Brasil aponta que 4 em cada 10 pedidos de pesquisa de terras raras no país são de empresas estrangeiras.
Mais controle do Estado e processamento no Brasil
- A favor: processar os minerais aqui agrega valor, gera empregos qualificados e dá ao país mais peso nas negociações internacionais. É o objetivo declarado da nova lei.
- Contra: a etapa de processamento é cara e tecnicamente difícil, e uma estatal exigiria investimento público e enfrentaria resistências, inclusive dentro do próprio governo, segundo a eixos.
E agora?
Com a reeleição de Lula, alguns pontos merecem atenção nos próximos meses:
- A regulamentação da Lei 15.506/2026 e as primeiras decisões do conselho criado por ela.
- Os efeitos da venda da Serra Verde, concluída em setembro, e de outros negócios no setor, como a compra do Projeto Caldeira, em Minas Gerais, pela australiana Lynas.
- As negociações com os Estados Unidos e com outros parceiros, que estavam paradas, segundo a CNN Brasil.
- Os novos projetos, principalmente em Minas Gerais e em Goiás, e se eles vão incluir etapas de processamento no Brasil.
As terras raras deixaram de ser só um assunto de mineração. Agora são também uma questão de política industrial e de relações internacionais. O MineraMente vai continuar explicando cada passo, com dados e sem torcida.
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Fontes
- TRE-SP – Eleições 2026: Lula é reeleito presidente da República (outubro de 2026)
- IstoÉ – Como as terras raras entraram na discussão eleitoral de 2026 (25/4/2026)
- eixos – Minerais críticos entram na disputa presidencial de 2026 (31/3/2026)
- Agência Pública – Terras raras brasileiras estão no radar da Defesa dos EUA (3/8/2026)
- Alcircle – USA Rare Earth to acquire Serra Verde Group in US$ 2.8B deal (abril de 2026)
- USA Rare Earth – USA Rare Earth Completes Combination with Serra Verde Group, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (4/9/2026)
- USA Rare Earth – Supplemental Disclosures (descrição do negócio da Serra Verde), anexo ao formulário 8-K na SEC (13/5/2026)
- Times Brasil – Brasil e EUA negociam acordo sobre terras raras, diz jornal (18/1/2026)
- CNN Brasil – EUA tratam Brasil como "país X" e "Equador" em proposta para terras raras (2/7/2026)
- Repórter Brasil – Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no Brasil (agosto de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths
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