Serra Verde: como funciona a mina de terras raras de Goiás
Como funciona a mina Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu (GO): argila iônica, lavra, concentrado, produção, venda para a USA Rare Earth e licenças.

A única mina de terras raras com produção comercial no Brasil fica em Minaçu, no norte de Goiás. É a mina Pela Ema, da empresa Serra Verde, que tira as terras raras de uma argila mole, sem explosivos, e vende um concentrado com os elementos ainda misturados. Desde 3 de setembro de 2026, a Serra Verde pertence à americana USA Rare Earth, e a produção da primeira fase já tem comprador: um veículo financiado pelo governo dos Estados Unidos.
Em resumo
- A mina fica a cerca de 30 km de Minaçu (GO) e explora um depósito de argila iônica, formado pela decomposição de um granito.
- A lavra é a céu aberto e rasa, sem explosivos nem moagem. Uma solução de sal solta as terras raras, e o produto é um carbonato misto de terras raras.
- A produção começou em janeiro de 2024, mas ainda é pequena: 150 toneladas de óxidos em 2024 e 40 em 2025. A meta é o ritmo de 4 mil toneladas por ano no fim de 2026 e, depois, 6,4 mil.
- A USA Rare Earth comprou a Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões. O contrato de venda da produção garante preços mínimos.
- O licenciamento é estadual (Semad-GO) e é questionado por quem defende que ele deveria ser federal.
Onde fica a mina
Segundo a empresa, a mina fica a cerca de 30 quilômetros a oeste-noroeste da cidade de Minaçu. A área diretamente afetada autorizada soma 4.362 hectares, cercada sobretudo por propriedades rurais com pasto. O produto segue de caminhão até o Porto de Santos (SP).
Minaçu, a 382 quilômetros de Brasília, nasceu por causa da mineração de amianto, proibida no país pelo Supremo Tribunal Federal em 2017, lembra a Agência Pública. Por isso, as terras raras foram recebidas na cidade como um recomeço. Os outros projetos do país estão em Terras raras no Brasil: onde estão e quais projetos existem.
Que tipo de depósito é Pela Ema
É um depósito de argila iônica. A rocha de origem é um granito rico em terras raras e ítrio, decomposto ao longo de muito tempo pela água da chuva (intemperismo). Segundo a descrição da empresa entregue à SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA, o principal horizonte com minério é o saprolito, uma rocha muito alterada com espessura média de 4,5 metros. Nele, as terras raras estão presas na superfície de argilas como caulinita, ilita e gibbsita, que formam de 15% a 40% do material. Há também minerais que guardam terras raras dentro dos cristais, como o xenotímio e a monazita.
A empresa destaca a proporção relativamente alta de terras raras pesadas, como disprósio e térbio, e a baixa radioatividade natural do depósito. Como esse tipo de jazida se forma está em Argila iônica: o tipo de depósito que pôs o Brasil no mapa das terras raras.
Como funciona a lavra e o processamento
Mole e perto da superfície, a argila é escavada direto, sem explosivos, britagem ou moagem. Segundo a empresa, a usina tem cinco etapas: peneiramento, troca iônica, filtros-prensa e precipitação, espessamento e filtragem do concentrado.
Na troca iônica, uma solução de sal troca de lugar com os íons de terras raras presos na argila e os leva consigo. A empresa cita reagentes como cloreto de sódio (o sal de cozinha) ou sulfato de amônio, um fertilizante. Depois, as terras raras são precipitadas, isto é, saem da solução como sólido.
O resultado é um carbonato misto de terras raras (MREC, na sigla em inglês), com os elementos ainda juntos. A separação de cada um é feita por terceiros, fora da mina. Entenda por que essa etapa é tão difícil em Como as terras raras são separadas: a etapa mais difícil da cadeia.
Os rejeitos (o material grosso do peneiramento e a torta dos filtros) vão para uma pilha a seco, sem barragem de lama, e cerca de 90% da água é reaproveitada, segundo a empresa. A diferença entre os dois sistemas está em Barragem de rejeitos: o que é e por que algumas são perigosas.
Quanto a mina produz e quais são as metas
A produção ainda está longe da capacidade planejada. Os números são da empresa, em toneladas de óxidos totais de terras raras.
| Período | Minério processado | Óxidos produzidos |
|---|---|---|
| 2024 | 584.946 t | 150 t |
| 2025 | 132.173 t | 40 t |
| Meta para o fim de 2026 | ritmo de cerca de 4.000 t por ano | |
| Segunda etapa (em obras) | média de 6.400 t por ano |
A queda de 2025, segundo a empresa, foi uma decisão para fazer manutenção, implantar um programa de otimização e cortar gastos enquanto fechava financiamentos. Em setembro de 2026, a USA Rare Earth previu o ritmo de 4 mil toneladas por ano até o fim de 2026 e o início do comissionamento da etapa de 6,4 mil toneladas em até 12 meses.
Pelo plano atual, a mina dura mais de 20 anos usando menos da metade do recurso estimado. A empresa estuda uma fase 2, que poderia dobrar o minério lavrado por volta de 2030 e exigiria novas licenças.
Uma história de 15 anos
- 2011: o fundo americano Denham Capital compra a Serra Verde Pesquisa e Mineração.
- 2013: a empresa pede a licença ambiental ao governo de Goiás, segundo o Jornal Opção.
- 2019 e 2020: sai a licença de instalação, o estado conclui o licenciamento e a construção da usina começa.
- Dezembro de 2023: a Semad-GO emite a licença de operação da fase 1.
- Janeiro de 2024: começa a produção, com as primeiras vendas no mesmo ano. A Agência Pública lembra que o início era esperado para 2022.
- Janeiro de 2026: a Serra Verde fecha financiamento de US$ 565 milhões com a DFC, agência de desenvolvimento do governo dos EUA.
Segundo a USA Rare Earth, mais de US$ 1,1 bilhão foi investido na mina.
A compra pela USA Rare Earth
Em 20 de abril de 2026, a USA Rare Earth anunciou a compra de 100% da Serra Verde por US$ 300 milhões em dinheiro e cerca de 126,8 milhões de ações novas, o equivalente a cerca de US$ 2,8 bilhões na cotação da época. Pelo acordo, os antigos donos ficariam com cerca de 34% da empresa combinada. A compra foi concluída em 3 de setembro de 2026.
A USA Rare Earth quer reunir mina, separação, metais e fábrica de ímãs numa só empresa, com operações nos EUA, no Reino Unido, na França e no Brasil. O debate político em torno da venda está em Por que todo mundo está falando de terras raras?.
O contrato de venda da produção
A produção da fase 1 de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, os quatro elementos dos ímãs permanentes, está vendida a um veículo capitalizado pelo governo americano e por investidores privados. O contrato foi anunciado como de 15 anos. Pelo texto entregue à SEC, ele vale até a entrega do produto de 198 milhões de toneladas de minério ou até 20 anos após o início das operações comerciais, o que vier primeiro.
O comprador paga mesmo que não retire o produto (contrato do tipo “take-or-pay”), e há preços mínimos por quilo, corrigidos em 2% ao ano:
| Elemento | Preço mínimo |
|---|---|
| Térbio | US$ 2.050 por kg |
| Disprósio | US$ 575 por kg |
| Neodímio | US$ 110 por kg |
| Praseodímio | US$ 110 por kg |
Quando o mercado paga mais que o mínimo, a Serra Verde fica com 70% da diferença. Em 24 de agosto de 2026, a empresa informou que o contrato entrou em vigor e que as entregas deveriam começar no início do último trimestre de 2026. O comprador pretende revender o concentrado a quem vai separá-lo.
Licenciamento e impactos
Quem licencia. O licenciamento ambiental é feito pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad-GO), num acordo de cooperação com o Ibama, e a lavra é fiscalizada pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A licença de operação vale até 18 de outubro de 2028 e exige monitorar a água, controlar a erosão, recuperar a vegetação, tratar efluentes e ter um plano de fechamento da mina.
O questionamento. O Observatório da Mineração, organização que acompanha o setor, defende que o licenciamento deveria ser federal, porque o minério tem urânio e tório associados, e registra que o Ibama sugeriu retomar o processo em abril de 2026. A empresa afirma ter todas as licenças necessárias para a fase 1. O tema está em Terras raras são radioativas? O que é mito e o que é verdade.
Desmatamento. Segundo o Observatório, a Semad-GO multou a Serra Verde por desmatar vegetação nativa em nascentes do Cerrado. Um termo de compromisso reduziu a multa de R$ 152,6 mil para R$ 76,3 mil.
Vizinhos. Em 2025, duas famílias vizinhas contaram à Agência Pública que dois riachos que nascem na área da mina ficaram com uma espécie de gordura avermelhada e que a empresa coletou amostras sem dar retorno. Procurada, a Serra Verde não respondeu sobre os córregos e disse manter um forte relacionamento com as comunidades de Minaçu.
Empregos. No fim de 2025, a mina tinha cerca de 350 empregados e 260 terceirizados, e a empresa prevê contratar mais 300 até atingir a capacidade da fase 1.
Perguntas frequentes
Onde fica a mina de terras raras de Goiás?
Em Minaçu, no norte de Goiás, a cerca de 30 km da cidade. É a mina Pela Ema, da Serra Verde, a única com produção comercial de terras raras no Brasil.
O que a Serra Verde produz?
Um carbonato misto de terras raras, concentrado em que os elementos ainda estão juntos, com destaque para neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A separação é feita fora da mina.
Quem é o dono da Serra Verde?
Desde 3 de setembro de 2026, a americana USA Rare Earth, que pagou cerca de US$ 2,8 bilhões entre dinheiro e ações. Antes, a empresa era controlada por fundos estrangeiros, como a Denham Capital.
Para quem vai a produção?
A produção da fase 1 dos quatro elementos usados em ímãs está vendida a um veículo financiado pelo governo dos Estados Unidos e por investidores privados, com preços mínimos garantidos.
A mina usa barragem de rejeitos?
Não, segundo a empresa. Os rejeitos são filtrados e empilhados a seco, e cerca de 90% da água do processo é reaproveitada.
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Fontes
- USA Rare Earth – USA Rare Earth Completes Combination with Serra Verde Group, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (4/9/2026)
- USA Rare Earth – USA Rare Earth Announces Definitive Agreement to Acquire Serra Verde Group for ~$2.8 Billion, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (20/4/2026)
- USA Rare Earth – Supplemental Disclosures (descrição do negócio e resultados da Serra Verde), anexo ao formulário 8-K na SEC (13/5/2026)
- Serra Verde – Serra Verde Announces Finalization of US Government Offtake Agreement, comunicado anexo ao formulário 8-K na SEC (24/8/2026)
- Mining.com – USA Rare Earth boosts Western supply with $2.8B Brazil deal (20/4/2026)
- BNamericas – Serra Verde receives operating license for Brazil rare earths project (26/12/2023)
- Jornal Opção – Goiás conclui licenciamento ambiental de mineradora que vai explorar terras raras em Minaçu (27/5/2020)
- Agência Pública – Do amianto às terras raras: cidade de Goiás vive entre passado e futuro da mineração (1/7/2025)
- Observatório da Mineração – Factsheet Terras Raras no Brasil (setembro de 2026)
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