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Minerais na construção civil: areia, brita, calcário e companhia

Areia, brita, calcário, gipsita, argila, rochas e ferro: os minerais da construção civil, quanto se usa, como se licencia e os impactos.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Grandes pilhas cônicas de areia e cascalho, esteiras transportadoras elevadas, silos e galpões de uma mineradora de agregados, vistas de longe através de um campo
Pilhas de cascalho e areia e esteiras transportadoras numa mineradora de agregados em Eching, na Baviera. Foto feita na Alemanha. Imagem: Flocci Nivis · CC BY 4.0 · Wikimedia Commons

Os minerais na construção civil são, em grande parte, materiais simples e baratos que saem do chão em volumes enormes: areia, brita, calcário, argila e gipsita. Eles viram concreto, cimento, tijolo, telha e gesso. Somam-se a eles o minério de ferro, que vira aço, a areia de quartzo do vidro e as rochas ornamentais dos pisos e bancadas.

Em resumo

  • Areia e brita são os agregados, a parte “pedra” do concreto e da argamassa. Em toneladas, são os bens minerais mais produzidos do Brasil.
  • Calcário e argila viram cimento; a gipsita controla o endurecimento do cimento e vira gesso.
  • Argila vira tijolo e telha; areia de quartzo, vidro; minério de ferro, aço.
  • Areia, brita e argila podem ser lavradas pelo regime de licenciamento (Lei 6.567/1978), com licença da prefeitura, licença ambiental e registro na Agência Nacional de Mineração (ANM), em até 50 hectares.
  • O maior ponto de atenção ambiental é a areia tirada de rios, que pode causar erosão e danos à biodiversidade.

Agregados: areia e brita

Agregado é o material granular que, misturado ao cimento e à água, forma o concreto e a argamassa. Os dois principais são a areia e a brita, rocha quebrada em britadores (rocha, e não mineral; veja Mineral, minério e rocha: qual é a diferença).

Segundo o Sumário Mineral de 2004, publicado pelo antigo DNPM (hoje ANM) com texto da Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção (Anepac), cerca de 85% da brita brasileira vinha de granito e gnaisse, 10% de calcário e dolomito e 5% de basalto e diabásio. Na areia, 70% saía do leito de rios e 30% de várzeas.

Como vale pouco por tonelada, o agregado precisa ser produzido perto de quem compra. O mesmo documento estimava que o transporte respondia por cerca de dois terços do preço final da areia e um terço do da brita. Por isso pedreiras e portos de areia ficam perto das cidades. A extração costuma ser feita em cavas e pedreiras a céu aberto (veja Mina a céu aberto ou subterrânea: como se escolhe o método), e a brita passa por britagem e peneiramento, etapas explicadas em Beneficiamento mineral: como o minério vira produto.

Quanto se usa

Os números de agregados no Brasil vêm sobretudo do próprio setor. Segundo a Anepac, em apresentação à Câmara dos Deputados em 2021, o país produziu 605 milhões de toneladas de agregados em 2020: 353 milhões de areia e 252 milhões de brita, cerca de 2,8 toneladas por habitante. Em abril de 2026, o diretor-geral da ANM, Mauro Sousa, disse que areia, brita e argila superam, em toneladas comercializadas, o minério de ferro, segundo a Agência iNFRA.

No mundo, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) de 2022 estimou o uso de 50 bilhões de toneladas de areia e cascalho por ano, o recurso mais usado depois da água.

Material Dado Fonte
Cimento no Brasil 67 milhões de t vendidas em 2025 (+3,7% sobre 2024) SNIC, via Agência iNFRA
Cimento no mundo cerca de 3,8 bilhões de t em 2025 (estimativa) USGS
Aço bruto no Brasil cerca de 35 milhões de t em 2025 (estimativa) USGS
Gipsita no Brasil cerca de 5,8 milhões de t em 2025 (estimativa) USGS

Calcário e cimento

O cimento portland começa no clínquer, produzido num forno rotativo a partir de materiais calcários, silicosos, aluminosos e ferrosos, segundo o USGS. O Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) lista como minerais do cimento o calcário, a argila, a areia e a gipsita. O clínquer é moído com um pouco de gipsita e, cada vez mais, com adições como escória de alto-forno.

O calcário é o ingrediente principal. O CETEM calcula que cada tonelada de cimento exige cerca de 1,4 tonelada de calcário. E precisa ser um calcário rico em carbonato de cálcio e com pouco magnésio.

Em 2025, as vendas de cimento no Brasil somaram 67 milhões de toneladas, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) citados pela Agência iNFRA, ainda abaixo do recorde de 73 milhões de 2014.

Diagrama com sete caminhos de minerais até a obra: calcário e argila viram cimento; cimento, areia, brita e água viram concreto; argila vira tijolos e telhas; gipsita vira gesso; areia de quartzo, barrilha e cal viram vidro; minério de ferro vira aço; granito, mármore e ardósia viram pisos e bancadas
Os principais minerais da construção e o que eles viram, com base em CETEM e USGS.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Gipsita e gesso

A gipsita é um sulfato de cálcio com água na estrutura. Ela tem dois papéis na obra:

  • No cimento: é adicionada ao clínquer, na proporção de 2% a 5%, para retardar a pega, isto é, o endurecimento. Segundo o USGS, a gipsita “não tem substituto prático” na fabricação do cimento portland. No Sul e no Sudeste, por causa do frete, o CETEM aponta que as fábricas trocam a gipsita natural por fosfogesso, subproduto da indústria de fertilizantes.
  • Como gesso: aquecida entre 125 °C e 180 °C, a gipsita perde parte da água e vira gesso. Misturado à água, ele endurece de novo. Daí vêm placas de drywall, pré-moldados e revestimentos.

A maior parte vem do Polo Gesseiro do Araripe, no oeste de Pernambuco. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o estado produziu 1,7 milhão de toneladas em 2017, 80% do total nacional. As estimativas variam bastante: o USGS, que revisou os números do Brasil, calcula cerca de 5,8 milhões de toneladas para o país em 2025.

Argila: tijolos, telhas e cerâmica

A argila comum é a matéria-prima da chamada cerâmica vermelha: blocos, tijolos, telhas, lajotas e tubos. Segundo o CETEM, a massa úmida passa por extrusoras que lhe dão forma e depois é queimada, em geral a temperaturas relativamente baixas, de 800 °C a 900 °C. Com dados de 2006 da associação do setor, o CETEM estimou cerca de 5.500 fábricas e 30 bilhões de peças por ano no Brasil.

Rochas ornamentais, vidro e aço

  • Rochas ornamentais: granito, mármore, quartzito e ardósia, extraídos em blocos e cortados em chapas para pisos, bancadas e fachadas. O Brasil é o maior fornecedor de granito dos EUA: entre 2021 e 2024, respondeu por 41% do valor importado pelos americanos, segundo o USGS.
  • Vidro: a areia industrial, rica em quartzo e pobre em ferro, fornece a sílica. Areia, cal e barrilha somam cerca de 90% das matérias-primas do vidro, e o vidro comum tem de 70% a 74% de sílica, segundo o CETEM.
  • Aço: vem do minério de ferro. Nos EUA, a construção foi o maior destino do aço em 2025, com 31% das entregas, segundo o USGS. Mais usos em Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.

Como se licencia uma pedreira ou um porto de areia

A Lei 6.567/1978 criou o regime de licenciamento, mais simples que o de autorização de pesquisa e concessão de lavra. Pelo art. 1º, ele vale para:

  • areias, cascalhos e saibros para uso imediato na construção civil;
  • rochas britadas para uso imediato na construção civil;
  • rochas aparelhadas para paralelepípedos, guias e sarjetas;
  • argilas para indústrias diversas, rochas ornamentais e de revestimento, e carbonatos de cálcio e de magnésio (incluídos pela Lei 13.975/2020).

As regras principais são:

  1. Área máxima de 50 hectares.
  2. Licença específica da prefeitura do município onde fica a jazida.
  3. Direito do proprietário do solo ou de quem tiver autorização dele.
  4. Licença ambiental, apresentada depois da análise da ANM.
  5. Registro de Licença na ANM, com taxa de R$ 272,63, segundo a página do serviço no gov.br.

A jazida pode ser explorada sem pesquisa prévia, quando as características dela permitem. Em 2024, a ANM abriu uma consulta pública para simplificar o regime. Outra particularidade: a Lei Geral do Licenciamento Ambiental excluiu a mineração da Licença por Adesão e Compromisso (LAC), feita com base em declaração do empreendedor, exceto para areia, cascalho e brita. Veja o passo a passo em Licenciamento ambiental da mineração: como funciona.

Impactos e o problema da areia de rio

Como a produção precisa ficar perto das cidades, o crescimento urbano cerca pedreiras e areais e acaba inviabilizando depósitos, segundo o Sumário Mineral de 2004. Mas o tema ambiental mais sensível é a areia retirada de rios e do litoral.

Rio de águas barrentas cercado de mata, com uma pequena draga de areia flutuando ao fundo e um cabo atravessado sobre a água
Pequena draga de areia num rio perto de Cidade Gaúcha, no noroeste do Paraná, em 2013.Imagem: Jarbas yurasseck, jr · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Segundo o Pnuma, tirar areia onde ela tem papel ativo, como rios e ecossistemas costeiros, pode causar erosão, salinização de aquíferos, perda de proteção contra ressacas e danos à biodiversidade. O relatório de 2022 recomendou proibir a extração em praias. Entre as alternativas, citou rocha britada e areia obtida de rejeitos de mineração. No Brasil, a areia de brita, feita do pó das britagens, já crescia como substituta da areia natural em 2004, segundo o Sumário Mineral.

Perguntas frequentes

Quais são os principais minerais usados na construção civil?

Areia e brita (os agregados), calcário e argila (para o cimento), gipsita (para o cimento e o gesso), argila para tijolos e telhas, areia de quartzo para o vidro, minério de ferro para o aço e rochas ornamentais para pisos e bancadas.

Do que é feito o cimento?

De clínquer, produzido num forno rotativo sobretudo a partir de calcário e argila, moído com um pouco de gipsita. Segundo o CETEM, cada tonelada de cimento consome cerca de 1,4 tonelada de calcário.

Precisa de autorização para tirar areia de rio?

Sim. Pelo regime de licenciamento da Lei 6.567/1978, é preciso ter licença da prefeitura, licença ambiental e o Registro de Licença na ANM, numa área de até 50 hectares.

A areia vai acabar?

Segundo o USGS, há areia e cascalho de sobra no mundo, mas pode faltar perto das cidades. O Pnuma alerta que o uso de cerca de 50 bilhões de toneladas por ano exige tratar a areia como recurso estratégico e trocar parte dela por rocha britada, materiais reciclados e areia de rejeitos.

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Fontes

  1. Lei nº 6.567/1978 (regime de licenciamento), com alterações das Leis 8.982/1995 e 13.975/2020
  2. Gov.br / ANM – Requerimento de Registro de Licença (Licenciamento Mineral), página atualizada em 26/6/2026
  3. Lei nº 15.190/2025 (Lei Geral do Licenciamento Ambiental), art. 22, incluído pela Lei 15.300/2025
  4. Cescon Barrieu – ANM abre Consulta Pública nº 05/2024 para simplificar o Regime de Licenciamento (2024)
  5. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Cement
  6. USGS – Cement Statistics and Information
  7. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Sand and Gravel (Construction)
  8. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Gypsum
  9. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Stone (Dimension)
  10. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Iron and Steel
  11. Agência iNFRA – Vendas de cimento crescem 3,7% e fecham 2025 em 67 mi de toneladas (9/1/2026, dados do SNIC)
  12. Agência iNFRA – ANM defende desburocratização no tratamento de minerais da construção civil (14/4/2026)
  13. DNPM/ANM – Sumário Mineral 2004: Agregados para construção civil (texto da Anepac)
  14. Anepac – Indústria Brasileira de Agregados, apresentação ao GT do Código de Mineração da Câmara dos Deputados (25/8/2021)
  15. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, 2ª ed. (2008), cap. 1: Panorama das rochas e minerais industriais no Brasil
  16. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, 2ª ed. (2008), cap. 5: Areia industrial
  17. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, 2ª ed. (2008), cap. 16: Calcário e dolomito
  18. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, 2ª ed. (2008), cap. 23: Gipsita
  19. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, 2ª ed. (2008), cap. 33: Argila para cerâmica vermelha
  20. SGB – Sumário executivo do Projeto Agrominerais Aveiro (gipsita e calcário no Pará)
  21. Pnuma (UNEP) – Our use of sand brings us against the wall, says UNEP report (comunicado de 26/4/2022, reproduzido pela ONU)

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