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Lítio: o que é, para que serve e onde o Brasil produz

Lítio para que serve? Entenda o que é esse metal, de onde ele vem, quanto vai para as baterias e como o Brasil produz espodumênio em Minas Gerais.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Vista aérea de um conjunto de tanques retangulares no deserto, com água em tons de azul-turquesa, azul-escuro e branco de sal
Tanques de evaporação de salmoura de uma operação de lítio em Clayton Valley, Nevada, nos Estados Unidos, vistos de avião. Imagem: Doc Searls · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Lítio para que serve? Hoje, cerca de 88% do lítio consumido no mundo vai para baterias recarregáveis, como as de celulares, notebooks, carros elétricos e sistemas de armazenamento de energia. O restante aparece em cerâmicas, vidros, graxas lubrificantes e remédios. Esse metal leve sai de dois tipos principais de depósito: salmouras de desertos e rochas chamadas pegmatitos. O Brasil explora o segundo tipo, em Minas Gerais.

Em resumo

  • O lítio é o elemento químico de número atômico 3 e o metal de menor densidade que existe.
  • Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), 88% do lítio consumido no mundo vai para baterias.
  • Ele é extraído de salmouras (Chile, Argentina, China) e de minerais de pegmatitos, como o espodumênio (Austrália, China, Zimbábue, Brasil).
  • Em 2025, a produção mundial de mina chegou a cerca de 290 mil toneladas de lítio contido, sem contar os Estados Unidos. A Austrália liderou.
  • O Brasil produziu cerca de 12 mil toneladas em 2025, segundo o USGS, em minas de Itinga, Araçuaí e Nazareno, em Minas Gerais.

O que é o lítio

O lítio é um metal macio e prateado, o terceiro elemento da tabela periódica. Segundo a Royal Society of Chemistry, sociedade britânica de química, ele tem a menor densidade de todos os metais (0,534 grama por centímetro cúbico) e reage com força quando entra em contato com a água. Segundo o USGS, o lítio metálico é tão leve que flutua no óleo.

O nome vem do grego lithos, que quer dizer “pedra”. A história tem um capítulo brasileiro: o primeiro mineral de lítio conhecido, a petalita, foi descoberto na década de 1790 na ilha sueca de Utö pelo brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva. Em 1817, o químico Johan August Arfvedson, de Estocolmo, analisou essa petalita e concluiu que ela continha um metal desconhecido, que chamou de lítio.

Na natureza, o lítio não aparece como metal puro. Ele faz parte da estrutura de mais de 200 minerais, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). Se a diferença entre mineral, minério e rocha ainda confunde, vale ler Mineral, minério e rocha: qual é a diferença.

De onde vem o lítio: salmouras e espodumênio

Dois tipos de depósito respondem pela produção mundial.

Salmouras. São águas muito salgadas, bombeadas de baixo de bacias secas, como os salares do Chile e da Argentina. Segundo o USGS, o clima árido é essencial porque o primeiro passo da extração é a evaporação solar: a salmoura vai para grandes tanques, a água evapora e o lítio se concentra. É o que mostra a foto da capa, feita em Clayton Valley, Nevada, nos Estados Unidos.

Pegmatitos. São rochas graníticas de cristais muito grandes. Neles, o lítio está em minerais como:

  • espodumênio, um silicato de lítio e alumínio, o mineral de lítio que o Brasil produz;
  • petalita, outro silicato de lítio e alumínio;
  • lepidolita, uma mica cor-de-rosa;
  • ambligonita, um fosfato.

O minério extraído é processado até virar um concentrado de espodumênio, que depois é aquecido (calcinado) e tratado quimicamente para dar origem a compostos como o carbonato e o hidróxido de lítio, usados pela indústria de baterias.

Pedaço de lepidolita, mineral em camadas finas e brilhantes, de cor lilás e cinza, sobre fundo preto
Lepidolita, uma mica que contém lítio, de Virgem da Lapa, no Vale do Jequitinhonha (MG).Imagem: Lech Darski · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Segundo a ANM, no Brasil predominam espodumênio, lepidolita, ambligonita e petalita, todos em pegmatitos. As ocorrências se concentram em três províncias pegmatíticas: a Oriental (Minas Gerais e Bahia), a do Nordeste (Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) e a Meridional (São Paulo).

Para que serve o lítio

O USGS estima assim os usos finais do lítio no mundo:

Uso Participação Exemplo
Baterias 88% carros elétricos, armazenamento de energia, celulares, ferramentas elétricas
Cerâmica e vidro 4% vidros especiais e vitrocerâmicas
Graxas lubrificantes 2% graxas para altas temperaturas
Tratamento de ar 1% sistemas de ar-condicionado e secagem industrial
Pós para lingotamento contínuo 1% pós usados nos moldes onde o metal líquido solidifica
Medicina 1% remédios à base de carbonato de lítio
Outros 3% usos diversos
Gráfico de barras: baterias 88%, cerâmica e vidro 4%, outros usos 3%, graxas lubrificantes 2%, tratamento de ar 1%, pós para lingotamento contínuo 1% e medicina 1%
Usos finais estimados do lítio consumido no mundo, segundo o USGS.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Alguns detalhes ajudam a entender a lista:

  • Baterias. O USGS atribui o salto no consumo às baterias recarregáveis de carros elétricos, de armazenamento de energia na rede elétrica, de aparelhos eletrônicos portáteis e de ferramentas elétricas. Também existem baterias de lítio não recarregáveis, usadas em marca-passos, brinquedos e relógios, segundo a Royal Society of Chemistry. Veja o que mais tem dentro do aparelho em Quais minerais tem no seu celular.
  • Cerâmica e vidro. Nesse caso, os minerais de lítio podem ser usados diretamente, como concentrado, sem virar composto químico, segundo o USGS.
  • Graxas. O estearato de lítio é usado como lubrificante de uso geral e para altas temperaturas.
  • Tratamento de ar. O cloreto de lítio é um dos materiais que mais absorvem umidade, por isso entra em sistemas de ar-condicionado e de secagem industrial.
  • Medicina. O carbonato de lítio é usado em remédios para o transtorno bipolar.
  • Ligas. Entre outros usos, ligas de alumínio e lítio, mais leves e resistentes, aparecem em aviões, quadros de bicicleta e trens de alta velocidade.

Para ver como outros minerais também chegam ao dia a dia, leia Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.

Quem produz e onde estão as reservas

Segundo o USGS, a produção mundial de mina, sem contar os Estados Unidos (que não divulgam o número), subiu 31% em 2025, para cerca de 290 mil toneladas de lítio contido. O consumo mundial cresceu 20%, para cerca de 263 mil toneladas.

País Produção de mina em 2025 (t de lítio) Reservas (t de lítio)
Austrália 92.000 8.400.000
China 62.000 4.600.000
Chile 56.000 9.200.000
Zimbábue 28.000 500.000
Argentina 23.000 4.400.000
Estados Unidos não divulgada 4.400.000
Brasil 12.000 540.000
Mali 9.400 370.000
Canadá 5.600 1.600.000
Mundo (arredondado) 290.000 (sem os EUA) 37.000.000

Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026 (dados de 2025 estimados).

Três pontos se destacam:

  • A Austrália, maior produtora a partir de pegmatitos, respondeu sozinha por cerca de um terço da produção de 2025. O Chile, que extrai lítio de salmouras, tem as maiores reservas.
  • O Brasil teve cerca de 4% da produção mundial em 2025 e a sétima maior reserva entre os países listados pelo USGS.
  • O preço oscila muito. A média anual do carbonato de lítio grau bateria nos Estados Unidos, em valores corrigidos, foi de US$ 63.700 por tonelada em 2022 e de US$ 9.000 em 2025, segundo o USGS.

Onde o Brasil produz lítio

Segundo a ANM, em 2024 o Brasil produziu 944.114 toneladas de concentrado de espodumênio, com teor médio de 5,7% de óxido de lítio. Isso equivale a 25.979 toneladas de óxido de lítio (Li₂O), um aumento de 71% em relação a 2023. Todo esse concentrado veio de três minas em Minas Gerais:

  • Mina da Cachoeira, subterrânea, da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), em Itinga e Araçuaí;
  • Mina Grota do Cirilo, a céu aberto, da Sigma Mineração, em Itinga;
  • Mina Volta Grande, da AMG Mineração, em Nazareno.

As duas primeiras ficam no Vale do Jequitinhonha. Segundo a ANM, o crescimento de 2024 veio principalmente da operação da Sigma. A CBL é a única empresa sediada no Brasil que fabrica compostos químicos de lítio, como carbonato e hidróxido, em sua fábrica de Divisa Alegre (MG).

Alguns números da ANM mostram o tamanho do setor e seus contrastes:

  • Reservas: cerca de 642,5 mil toneladas de óxido de lítio, no Vale do Jequitinhonha e na região de São João del-Rei (MG).
  • Exportação: o Brasil exportou US$ 302,6 milhões em produtos de lítio em 2024, 94,5% deles em concentrado de espodumênio. A China recebeu 97% desse valor.
  • Importação: o país comprou US$ 647,7 milhões em produtos de lítio em 2024, sobretudo baterias de íons de lítio já prontas. O saldo do setor ficou negativo em US$ 355,2 milhões.
  • Royalties: a arrecadação da CFEM, a compensação paga pelas mineradoras, caiu 56,3% em 2024, para R$ 24,1 milhões, puxada pela queda dos preços.

Em 2023, o governo de Minas Gerais lançou o projeto Vale do Lítio, com o objetivo declarado de tornar o estado protagonista na cadeia de valor do lítio. Segundo o governo estadual, até maio de 2026 a iniciativa atraiu R$ 6,9 bilhões em investimentos privados. A expansão da mineração na região tem efeitos sociais e ambientais, positivos e negativos, que analisamos em Lítio no Vale do Jequitinhonha: oportunidades e problemas. Para um panorama geral do tema, veja Impactos ambientais da mineração: quais são e como podem ser reduzidos.

Perguntas frequentes

Lítio para que serve, afinal?

Principalmente para baterias recarregáveis, que consomem 88% do lítio do mundo, segundo o USGS. O restante vai para cerâmica e vidro, graxas lubrificantes, tratamento de ar, pós para lingotamento contínuo e remédios.

Qual país produz mais lítio?

A Austrália, com cerca de 92 mil toneladas de lítio contido em 2025, segundo o USGS. China e Chile vêm em seguida. O Chile tem as maiores reservas.

Onde tem lítio no Brasil?

A produção está em Minas Gerais: em Itinga e Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, e em Nazareno. Segundo a ANM, também há ocorrências em pegmatitos da Bahia, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará e de São Paulo.

O Brasil transforma o lítio que extrai?

Só em parte. Segundo a ANM, a CBL é a única empresa sediada no Brasil que produz compostos químicos de lítio. As exportações do setor são quase todas de concentrado de espodumênio, sobretudo para a China, enquanto o país importa baterias prontas.

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Fontes

  1. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lithium (fevereiro de 2026)
  2. USGS – Professional Paper 1802-K: Lithium (Bradley e outros, 2017)
  3. Royal Society of Chemistry – Periodic Table: Lithium
  4. ANM – Sumário Mineral 2025: Lítio (ano-base 2024)
  5. Agência Minas (Governo de Minas Gerais) – Vale do Lítio completa três anos marcados por avanço no PIB de municípios do Jequitinhonha (9/5/2026)

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