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Os minerais que alimentam a agricultura: potássio, fosfato e calcário

Quais são os minerais nos fertilizantes, de onde vêm potássio, fosfato e calcário agrícola e por que o Brasil importa mais de 90% do adubo que usa.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Campo plano com fileiras de plantas jovens que se estendem até o horizonte, sob céu nublado
Lavoura em Brasnorte, no noroeste de Mato Grosso. Boa parte do adubo usado em áreas como esta vem de minerais importados. Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil · CC BY 3.0 BR · Wikimedia Commons

Os principais minerais nos fertilizantes são a rocha fosfática, que fornece o fósforo, e os sais de potássio, como a silvinita. Ao lado deles entra o calcário, que não é adubo, mas corrige a acidez do solo para que o adubo funcione. O Brasil é um grande produtor de alimentos e, mesmo assim, importa a maior parte dos fertilizantes que usa.

Em resumo

  • NPK é a sigla de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). Só o fósforo e o potássio saem de minas. O nitrogênio vem do ar, transformado em amônia com gás natural.
  • O Brasil importou cerca de 91% dos fertilizantes que consumiu em 2024, segundo a Infra S.A., empresa ligada ao Ministério dos Transportes, com dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).
  • O fosfato vem sobretudo de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. O potássio tem uma mina em produção, em Sergipe, e um projeto em Autazes (AM) contestado por indígenas Mura.
  • O calcário agrícola é a exceção: o país produz praticamente tudo o que consome.
  • Fosfato e potássio estão na lista de minerais estratégicos de 2021, e a Lei 15.506/2026 ligou os minerais críticos à segurança alimentar.

De onde vem cada letra do NPK

Segundo o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado pelo governo federal em 2022, nitrogênio, fósforo e potássio são os macronutrientes primários das plantas e, misturados, “compõem as fórmulas NPK”. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) afirma que nenhum dos três tem substituto na agricultura.

Quadro com três colunas: nitrogênio vem do ar e do gás natural e vira amônia e ureia, com 95% importado em 2023; fósforo vem da rocha fosfática e vira superfosfatos, MAP e DAP, com 66% importado; potássio vem de sais como a silvinita e vira cloreto de potássio, com 97% importado. Abaixo, nota de que o calcário é corretivo e o Brasil produz o que consome
De onde vem cada nutriente do NPK e quanto o Brasil importou de cada um em 2023, segundo a Infra S.A. com dados da Anda.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Nitrogênio: não vem de mina. Ele é tirado da atmosfera, uma fonte que o USGS considera “ilimitada”. O desafio é transformá-lo em amônia, e para isso a indústria usa gás natural, a matéria-prima dominante nos EUA. No Brasil, o gás natural é usado para fazer amônia e ureia desde 1971, segundo o PNF. Em 2023, o país importou 95% dos nitrogenados que consumiu, e a Infra S.A. atribui parte disso ao alto custo do gás natural.

Fósforo e potássio: vêm de minas. A rocha fosfática é tratada com ácido sulfúrico e vira superfosfatos e fosfatos de amônio (MAP e DAP). Os sais de potássio viram principalmente cloreto de potássio. As duas cadeias começam numa mina, como as descritas em Como funciona uma mina: da descoberta ao fechamento.

Fosfato: onde estão as minas brasileiras

Diferentemente da maior parte do mundo, onde predominam rochas sedimentares marinhas, o Brasil tem fosfato em rochas ígneas, formadas a partir de magma, segundo o USGS. Segundo o PNF, a produção nacional de concentrado fosfático, de 5,3 milhões de toneladas em 2019, saía de complexos de rochas alcalinas e carbonatitos em Tapira, Salitre (Patrocínio) e Araxá, em Minas Gerais, Catalão, em Goiás, e Cajati, em São Paulo, entre outros.

A mina de Patos de Minas (MG) já estava parada em 2022. Em outubro de 2025, a Mosaic concluiu a venda dessa unidade para a Fosfatados Centro e disse esperar que a compradora retome a operação. Em janeiro de 2026, segundo o Diário do Comércio, a Mosaic prorrogou a paralisação da produção de fosfato em Araxá, atribuída ao custo do enxofre, usado para fazer o ácido sulfúrico.

Mesmo assim, 66% dos fosfatados usados em 2023 foram importados, segundo a Infra S.A.

Potássio: o caso mais crítico

O potássio vem de depósitos evaporíticos, sais que se acumularam com a evaporação de águas antigas. O minério mais comum é a silvinita, que o PNF define como uma mistura de silvita (cloreto de potássio) e halita (cloreto de sódio, o sal de cozinha). Segundo o plano, o Brasil é o segundo maior consumidor de potássio do mundo, atrás da China. Em 2023, importou cerca de 97% do que usou.

Amostra de rocha com massas brancas e acinzentadas entremeadas por manchas vermelho-alaranjadas, sobre fundo branco
Silvinita da região de Solikamsk, na Rússia: as partes brancas e cinzentas são halita, e as avermelhadas, silvita, o mineral do potássio.Imagem: James St. John · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Taquari-Vassouras (SE) é o único parque produtivo de potássio do país, segundo o PNF, e produziu cerca de 9,5 milhões de toneladas de K₂O (a medida usada para o teor de potássio) de 1988 a 2020. Em 2025, a Mosaic vendeu a mina para a VL Mineração, afirmando que a operação precisava de mais de US$ 25 milhões em investimentos para continuar viável.

Autazes (AM) é o grande projeto em andamento. A Potássio do Brasil, subsidiária da Brazil Potash, quer abrir ali uma mina subterrânea de silvinita. Segundo a empresa, a produção inicial pode chegar a 2,4 milhões de toneladas por ano, cerca de 20% da demanda brasileira atual. A Infra S.A. lista o projeto com “obras iniciadas” e produção prevista entre 2028 e 2032. Os dois lados:

  • A empresa afirma que uma consulta ao povo Mura, acompanhada pela Justiça, mostrou “mais de 90% de apoio”. Em agosto de 2026, informou que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, rejeitou um pedido da Defensoria Pública da União para suspender as licenças.
  • Os críticos contestam. O Ministério Público Federal (MPF) pede, em ação de maio de 2024, a suspensão das licenças de instalação dadas pelo órgão ambiental do Amazonas (Ipaam), por entender que o licenciamento caberia ao Ibama. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Funai confirmou em agosto de 2026 que o empreendimento se sobrepõe à Terra Indígena Lago do Soares, reivindicada pelos Mura e ainda em estudo. Lideranças Mura contestam a consulta.

O debate mais amplo está em Mineração em terras indígenas: o que está em discussão no Congresso.

Calcário agrícola: o mineral que faz o adubo funcionar

Os solos tropicais costumam ser ácidos. Segundo pesquisadores da Embrapa, a chuva intensa lava do solo o cálcio e o magnésio. Num solo muito ácido, fósforo, cálcio, magnésio e potássio ficam menos disponíveis, e o alumínio se solta em formas tóxicas para as raízes. É o caso dos solos do Cerrado, onde a toxidez de alumínio costuma aparecer abaixo de pH 5,5.

A solução é a calagem: aplicar calcário moído para elevar o pH à faixa de 5,5 a 6,5, neutralizar o alumínio e aumentar os teores de cálcio e magnésio. A Embrapa a considera “fundamental para o uso eficiente dos fertilizantes”. O calcário calcítico tem menos de 5% de óxido de magnésio, e o dolomítico, mais de 12%. Como se dissolve devagar, precisa ser aplicado antes do plantio.

Aqui o Brasil é autossuficiente. Segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola (Abracal) reunidos pela Infra S.A., o país consumiu cerca de 59,6 milhões de toneladas em 2024 e produziu 59,9 milhões, com Mato Grosso na liderança. A Abracal estima que cerca de dois terços dos solos agricultáveis ainda precisam ser corrigidos.

Por que o Brasil importa tanto

Segundo a Infra S.A., as importações respondiam por 70% do abastecimento de fertilizantes em 2015 e chegaram a 91% em 2024, quando o país consumiu 45,6 milhões de toneladas e importou 41,3 milhões. A produção nacional caiu de cerca de 9 milhões para 7,2 milhões de toneladas no período.

O PNF aponta o risco: o país fica exposto a preços, câmbio, fretes e decisões de outros países, como as restrições de exportação de China e Rússia em 2021 e 2022. No potássio, o plano projetava que, num cenário intermediário e com estímulos, a dependência poderia cair para 40% até 2052. Já a Infra S.A. calcula que, mesmo com todas as fábricas nacionais de potássicos na capacidade máxima, ela ficaria em 95%.

Pó de rocha: alternativa ou complemento?

Os remineralizadores, ou pó de rocha, são rochas silicáticas moídas, como o basalto, que liberam nutrientes aos poucos. Foram definidos na Lei 12.890/2013, e o PNF tem a meta de produzir 2 milhões de toneladas por ano até 2030.

As pesquisas pedem cautela. Em 2004, a Embrapa Cerrados já observava que rochas com 2% a 6% de potássio não compensam ser levadas por longas distâncias. Um estudo de 2020, com pesquisadores do IFMS, da Embrapa e da UCDB, concluiu que o uso de pó de rocha “depende ainda de estudos técnicos, econômicos e ambientais”. No ensaio, com milho safrinha em Mato Grosso do Sul, o adubo NPK solúvel rendeu mais que 6 e 12 toneladas por hectare de pó de basalto.

Fertilizantes na política de minerais críticos

Fosfato e potássio estão no primeiro grupo da lista de minerais estratégicos de 2021, ao lado de enxofre e molibdênio: os bens dos quais o país “depende de importação em alto percentual”. A Lei 15.506/2026 define como críticos os minerais com oferta insuficiente para setores-chave, entre eles os necessários para “garantir segurança alimentar e nutricional”. A lei também abre aos fertilizantes créditos fiscais e debêntures incentivadas, títulos usados para financiar investimentos. Veja Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos, Minerais críticos e estratégicos: o que são e por que viraram prioridade e, para outros minerais do cotidiano, Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.

Perguntas frequentes

Quais minerais são usados nos fertilizantes?

Os principais são a rocha fosfática, fonte de fósforo, e os sais de potássio, como a silvinita. O enxofre entra na fabricação dos fosfatados. O calcário é usado junto, como corretivo da acidez do solo.

O nitrogênio do adubo vem de mina?

Não. Ele é tirado do ar e transformado em amônia com gás natural. Da amônia saem a ureia e outros adubos nitrogenados.

Quanto do fertilizante usado no Brasil é importado?

Cerca de 91% em 2024, segundo a Infra S.A. com dados da Anda. Em 2023, a dependência foi de 95% no nitrogênio, 66% no fósforo e 97% no potássio.

Para que serve o calcário na agricultura?

Para corrigir a acidez do solo. Ele eleva o pH, neutraliza o alumínio tóxico e aumenta os teores de cálcio e magnésio. Com isso, as plantas aproveitam melhor o adubo.

O projeto de potássio de Autazes já funciona?

Não. Segundo a Infra S.A., as obras começaram e a produção é prevista entre 2028 e 2032. O projeto é contestado pelo MPF e por lideranças Mura, que apontam sobreposição com uma terra indígena em estudo.

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Fontes

  1. Governo Federal (SAE) – Plano Nacional de Fertilizantes 2050 (março de 2022)
  2. Infra S.A./Observatório Nacional de Transporte e Logística – Boletim de Logística: a logística do mercado de fertilizantes e calcário no Brasil (fevereiro de 2026)
  3. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Potash
  4. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Phosphate Rock
  5. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Nitrogen (Fixed)–Ammonia
  6. Embrapa – Veloso et al., Correção da acidez do solo, cap. 10 de Recomendações de calagem e adubação para o estado do Pará (2020)
  7. Embrapa Arroz e Feijão – Fageria e Stone, Manejo da acidez dos solos de cerrado e de várzea do Brasil (Documentos 92, 1999)
  8. Dettmer et al. (IFMS, Embrapa e UCDB) – Uso de pó de rocha em sistemas de produção agrícola: breve análise sobre viabilidade técnica (2020, repositório Alice/Embrapa)
  9. Embrapa Cerrados – Pó de rocha será nova fonte de potássio para agricultura (1/11/2004)
  10. Senado Federal – Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026 (texto integral)
  11. Diário Oficial da União – Resolução nº 2, de 18 de junho de 2021, do Comitê Interministerial de Análise de Projetos de Minerais Estratégicos
  12. The Mosaic Company – Mosaic Announces Agreement for Sale of Potash Mining Operations in Brazil to VL Mineração (13/8/2025)
  13. The Mosaic Company – Mosaic Announces Completion of Sale of Potash Mining Operations in Brazil to VL Mineracao (4/11/2025)
  14. The Mosaic Company – Mosaic Announces Completion of Sale of Phosphate Mining Unit in Brazil to Fosfatados Centro (6/10/2025)
  15. Diário do Comércio – Mosaic prorroga paralisação da produção de fosfato em Araxá (22/1/2026)
  16. Brazil Potash (comunicado reproduzido pela Finviz) – Brazil's Supreme Federal Court issues favorable decision for Brazil Potash (21/8/2026)
  17. Cimi – Mineradora canadense desmata áreas e avança sobre território reivindicado pelo povo Mura no Amazonas (7/4/2026)
  18. Cimi – "Não há dúvidas" de que megaprojeto de mineração de potássio sobrepõe território Mura, reafirma Funai (19/8/2026)

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