Os minerais do carro elétrico: da bateria ao motor
Lítio, níquel, cobalto, grafita, cobre, terras raras e alumínio: quais minerais vão num carro elétrico, onde ficam e em que quantidade.

Os minerais do carro elétrico se concentram em duas peças: a bateria, que usa lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita, e o motor, que costuma ter ímãs de terras raras e cobre. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), um carro elétrico típico precisa de cerca de seis vezes mais minerais que um carro a combustão. A conta muda conforme o tipo de bateria e de motor, e é isso que este guia explica.
Em resumo
- Pelas contas da IEA (2021), um carro elétrico leva cerca de 207 kg de minerais como grafita, cobre, níquel e lítio, contra cerca de 34 kg num carro convencional, sem contar aço e alumínio.
- A bateria concentra a maior parte: lítio, níquel, cobalto e manganês no polo positivo e grafita no negativo.
- A bateria LFP (lítio, ferro e fosfato) dispensa níquel e cobalto e já passou de 55% das baterias de carros elétricos instaladas no mundo em 2025.
- O motor mais comum usa ímãs com neodímio, mas há motores sem terras raras, que gastam mais cobre.
- A produção é concentrada: o Congo respondeu por 73% do cobalto em 2025, e a China, por 82% da grafita natural, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Quanto mineral vai em um carro elétrico?
Em 2021, a IEA comparou os minerais de um carro elétrico com os de um carro a combustão. O elétrico do cálculo tinha bateria de 75 kWh do tipo NMC 622, com polo negativo de grafita, e os valores valem para o veículo inteiro. A conta não inclui aço nem alumínio, e com outra bateria os números de níquel, cobalto e manganês mudam muito.
A bateria: o coração mineral do carro
A bateria é formada por células, agrupadas em módulos dentro de um pacote. Segundo a IEA, as células representam de 70% a 85% do peso da bateria, e é nelas que ficam os minerais ativos:
- Polo positivo (catodo): lítio, níquel, cobalto e manganês, em proporções que variam conforme a química.
- Polo negativo (anodo): em geral, grafita, uma forma de carbono.
- Coletor de corrente: cobre.
O restante do pacote é feito principalmente de alumínio, aço, líquidos de refrigeração e eletrônicos.
Baterias já são o principal destino do lítio: o USGS estima que 88% do lítio consumido no mundo vai para elas, incluindo as de carros, de armazenamento de energia e de aparelhos portáteis. Para comparar com um aparelho bem menor, veja Quais minerais tem no seu celular.
LFP ou NMC: a química muda os minerais
As baterias recebem nomes de acordo com o material do polo positivo. As duas famílias principais são:
| NMC | LFP | |
|---|---|---|
| Sigla | níquel, manganês e cobalto | lítio, ferro e fosfato |
| Ponto forte | mais energia por quilo (até 265 Wh/kg) | mais barata, estável com calor e durável |
| Ponto fraco | depende de níquel e cobalto | menos energia por quilo (até 205 Wh/kg) |
Os valores de energia são das células mais recentes, segundo o Global EV Outlook 2026, relatório anual da IEA. A LFP não usa níquel, cobalto nem manganês, mas precisa de cerca de 50% mais cobre que a NMC.
A LFP ganhou espaço rápido: em 2025, respondeu por mais de 55% das baterias de carros elétricos instaladas no mundo, contra quase 50% em 2024. O uso se concentra na China. Na União Europeia, a fatia foi de pouco mais de 10%.
Na família NMC, a tendência foi reduzir o cobalto. Segundo a IEA, picos de preço e preocupações com as condições de mineração levaram os fabricantes a trocar a NMC 111 por versões mais ricas em níquel, como a NMC 622 e a NMC 811 (os números indicam as proporções dos três metais). As NMC 721 e 811 têm cerca de 10% de cobalto no conteúdo metálico, sem contar o lítio.
Já a bateria de íons de sódio, que não usa lítio, está entrando em produção em escala, mas guarda menos energia: até 175 Wh/kg, segundo a IEA.
O motor: ímãs de terras raras ou mais cobre
A IEA descreve dois tipos principais de motor:
- Síncrono de ímãs permanentes. É o mais eficiente e compacto. Seus ímãs de neodímio, ferro e boro levam de 0,25 a 0,50 kg de neodímio por veículo, mais 0,06 a 0,35 kg de outras terras raras, como disprósio e térbio, e de 3 a 6 kg de cobre.
- De indução. Não usa terras raras, mas exige de 11 a 24 kg de cobre e é menos eficiente. A Tesla usou esse motor no Model S, e a Audi fez uma versão com rotor de alumínio no e-tron.
Em 2021, mais de 90% dos carros elétricos à venda usavam ímãs permanentes, segundo a IEA. Outras saídas em estudo eram motores com menos terras raras, ímãs de ferrite e motores de relutância chaveada, que dispensam terras raras e cobre, mas estavam nos primeiros protótipos.
Para entender esse ímã e quem domina sua produção, leia Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas. Sobre o grupo de elementos, veja Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.
Cobre e alumínio
O cobre é, nas palavras da IEA, um pilar de todas as tecnologias ligadas à eletricidade: entre os metais, só a prata conduz melhor. No cálculo da IEA, o carro elétrico tem 53,2 kg de cobre, mais que o dobro dos 22,3 kg do carro a combustão.
O alumínio fica fora da comparação, mas aparece no pacote da bateria e em alguns motores de indução. Conduz menos eletricidade (o cobre conduz cerca de 60% mais), mas pesa menos de um terço. Ele vem da bauxita: segundo o USGS, 4 toneladas de bauxita rendem 2 de alumina, que viram 1 tonelada de alumínio. O Brasil produziu cerca de 33 milhões de toneladas de bauxita em 2025, atrás de Guiné, Austrália e China.
De onde vêm esses minerais
| Mineral | Uso no carro | Maiores produtores (2025, USGS) | Brasil |
|---|---|---|---|
| Lítio | bateria | Austrália, China e Chile | cerca de 12 mil t |
| Níquel | bateria NMC | Indonésia (2,6 de 3,9 milhões de t) | cerca de 70 mil t |
| Cobalto | bateria NMC | Congo (73%) e Indonésia (14%) | fora da lista |
| Manganês | bateria NMC | África do Sul, Gabão, Gana e Austrália | cerca de 800 mil t de manganês contido |
| Grafita natural | bateria | China (82%) | cerca de 65 mil t e a segunda maior reserva |
| Terras raras | ímãs do motor | China (270 mil de 390 mil t) | cerca de 2 mil t |
| Cobre | motor e bateria | Chile, Congo e Peru | fora da lista |
Dois detalhes: a maior parte do manganês vai para a siderurgia, já que o consumo acompanha a indústria do aço, segundo o USGS. E a concentração não para na mina: a China fez mais de 80% das células de bateria do mundo em 2025, segundo a IEA. Para ver outros objetos que dependem de minas, leia Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.
E no Brasil?
Segundo a IEA, o Brasil vendeu cerca de 180 mil carros elétricos em 2025, ou 9% dos carros novos, contra 6,5% em 2024. É um dos poucos países onde se vendem mais híbridos plugáveis (com motor a combustão e bateria recarregável na tomada) que elétricos puros. Pouco menos de 85% desses carros foram fabricados na China. No mundo, as vendas passaram de 20 milhões em 2025, um em cada quatro carros novos.
A reciclagem resolve?
Ainda não. Segundo a IEA, quase todas as baterias de carros elétricos instaladas nos últimos anos seguem em uso e devem durar até meados da década de 2030. Há uma defasagem de cerca de 15 anos entre o crescimento da demanda e a chegada de grandes volumes de baterias velhas à reciclagem, que hoje recupera sobretudo sobras da fabricação. Enquanto isso, o consumo mundial de lítio cresceu 20% em 2025, segundo o USGS. Os limites da reciclagem estão em Mineração urbana: reciclar lixo eletrônico pode substituir minas?.
Perguntas frequentes
Quais são os minerais do carro elétrico?
Na bateria, lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita, além de cobre e alumínio. No motor, terras raras como o neodímio e cobre. A lista exata depende da química da bateria e do tipo de motor.
Quanto lítio tem um carro elétrico?
No exemplo da IEA, com bateria NMC 622 de 75 kWh, cerca de 8,9 kg. A grafita (66,3 kg) e o níquel (39,9 kg) pesam bem mais no mesmo carro.
Toda bateria de carro elétrico tem cobalto?
Não. As baterias LFP não usam cobalto nem níquel e já são mais da metade das baterias de carros elétricos instaladas no mundo, segundo a IEA. As NMC usam cobalto, mas em proporção cada vez menor.
Todo carro elétrico usa terras raras?
A maioria usa, no ímã do motor. Motores de indução dispensam terras raras, mas gastam mais cobre e são menos eficientes.
O carro elétrico usa mais minerais que o carro a combustão?
Sim, cerca de seis vezes mais, sem contar aço e alumínio, segundo a IEA. Em troca, deixa de queimar combustível: a frota mundial de elétricos evitou o consumo de cerca de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia em 2025.
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Fontes
- IEA – The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions (maio de 2021)
- IEA – Minerals used in electric cars compared to conventional cars (gráfico, 5/5/2021)
- IEA – Global EV Outlook 2026: Executive summary (maio de 2026)
- IEA – Global EV Outlook 2026: Trends in electric cars (maio de 2026)
- IEA – Global EV Outlook 2026: Electric vehicle batteries (maio de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lithium (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Nickel (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Cobalt (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Manganese (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Graphite (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Copper (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
- USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Bauxite and Alumina (fevereiro de 2026)
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