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Os minerais do carro elétrico: da bateria ao motor

Lítio, níquel, cobalto, grafita, cobre, terras raras e alumínio: quais minerais vão num carro elétrico, onde ficam e em que quantidade.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

8 min de leitura

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Pacote de bateria de carro elétrico aberto, com caixa de alumínio e fileiras de células brancas com terminais metálicos, ligadas por cabos
Pacote de bateria de íons de lítio do BMW i3 aberto em uma feira de eletrônica. Foto feita em Munique, na Alemanha. Imagem: RudolfSimon · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Os minerais do carro elétrico se concentram em duas peças: a bateria, que usa lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita, e o motor, que costuma ter ímãs de terras raras e cobre. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), um carro elétrico típico precisa de cerca de seis vezes mais minerais que um carro a combustão. A conta muda conforme o tipo de bateria e de motor, e é isso que este guia explica.

Em resumo

  • Pelas contas da IEA (2021), um carro elétrico leva cerca de 207 kg de minerais como grafita, cobre, níquel e lítio, contra cerca de 34 kg num carro convencional, sem contar aço e alumínio.
  • A bateria concentra a maior parte: lítio, níquel, cobalto e manganês no polo positivo e grafita no negativo.
  • A bateria LFP (lítio, ferro e fosfato) dispensa níquel e cobalto e já passou de 55% das baterias de carros elétricos instaladas no mundo em 2025.
  • O motor mais comum usa ímãs com neodímio, mas há motores sem terras raras, que gastam mais cobre.
  • A produção é concentrada: o Congo respondeu por 73% do cobalto em 2025, e a China, por 82% da grafita natural, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Quanto mineral vai em um carro elétrico?

Em 2021, a IEA comparou os minerais de um carro elétrico com os de um carro a combustão. O elétrico do cálculo tinha bateria de 75 kWh do tipo NMC 622, com polo negativo de grafita, e os valores valem para o veículo inteiro. A conta não inclui aço nem alumínio, e com outra bateria os números de níquel, cobalto e manganês mudam muito.

Gráfico de barras com os quilos de cada mineral por veículo: grafita 66,3 kg no carro elétrico e zero no convencional; cobre 53,2 kg contra 22,3 kg; níquel 39,9 kg contra zero; manganês 24,5 kg contra 11,2 kg; cobalto 13,3 kg contra zero; lítio 8,9 kg contra zero; terras raras 0,5 kg contra zero
Minerais por veículo em um carro elétrico e em um carro convencional, com dados da IEA (2021). Aço e alumínio não entram na conta.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

A bateria: o coração mineral do carro

A bateria é formada por células, agrupadas em módulos dentro de um pacote. Segundo a IEA, as células representam de 70% a 85% do peso da bateria, e é nelas que ficam os minerais ativos:

  • Polo positivo (catodo): lítio, níquel, cobalto e manganês, em proporções que variam conforme a química.
  • Polo negativo (anodo): em geral, grafita, uma forma de carbono.
  • Coletor de corrente: cobre.

O restante do pacote é feito principalmente de alumínio, aço, líquidos de refrigeração e eletrônicos.

Baterias já são o principal destino do lítio: o USGS estima que 88% do lítio consumido no mundo vai para elas, incluindo as de carros, de armazenamento de energia e de aparelhos portáteis. Para comparar com um aparelho bem menor, veja Quais minerais tem no seu celular.

LFP ou NMC: a química muda os minerais

As baterias recebem nomes de acordo com o material do polo positivo. As duas famílias principais são:

NMC LFP
Sigla níquel, manganês e cobalto lítio, ferro e fosfato
Ponto forte mais energia por quilo (até 265 Wh/kg) mais barata, estável com calor e durável
Ponto fraco depende de níquel e cobalto menos energia por quilo (até 205 Wh/kg)

Os valores de energia são das células mais recentes, segundo o Global EV Outlook 2026, relatório anual da IEA. A LFP não usa níquel, cobalto nem manganês, mas precisa de cerca de 50% mais cobre que a NMC.

A LFP ganhou espaço rápido: em 2025, respondeu por mais de 55% das baterias de carros elétricos instaladas no mundo, contra quase 50% em 2024. O uso se concentra na China. Na União Europeia, a fatia foi de pouco mais de 10%.

Na família NMC, a tendência foi reduzir o cobalto. Segundo a IEA, picos de preço e preocupações com as condições de mineração levaram os fabricantes a trocar a NMC 111 por versões mais ricas em níquel, como a NMC 622 e a NMC 811 (os números indicam as proporções dos três metais). As NMC 721 e 811 têm cerca de 10% de cobalto no conteúdo metálico, sem contar o lítio.

Já a bateria de íons de sódio, que não usa lítio, está entrando em produção em escala, mas guarda menos energia: até 175 Wh/kg, segundo a IEA.

O motor: ímãs de terras raras ou mais cobre

A IEA descreve dois tipos principais de motor:

  • Síncrono de ímãs permanentes. É o mais eficiente e compacto. Seus ímãs de neodímio, ferro e boro levam de 0,25 a 0,50 kg de neodímio por veículo, mais 0,06 a 0,35 kg de outras terras raras, como disprósio e térbio, e de 3 a 6 kg de cobre.
  • De indução. Não usa terras raras, mas exige de 11 a 24 kg de cobre e é menos eficiente. A Tesla usou esse motor no Model S, e a Audi fez uma versão com rotor de alumínio no e-tron.

Em 2021, mais de 90% dos carros elétricos à venda usavam ímãs permanentes, segundo a IEA. Outras saídas em estudo eram motores com menos terras raras, ímãs de ferrite e motores de relutância chaveada, que dispensam terras raras e cobre, mas estavam nos primeiros protótipos.

Para entender esse ímã e quem domina sua produção, leia Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas. Sobre o grupo de elementos, veja Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

Cobre e alumínio

O cobre é, nas palavras da IEA, um pilar de todas as tecnologias ligadas à eletricidade: entre os metais, só a prata conduz melhor. No cálculo da IEA, o carro elétrico tem 53,2 kg de cobre, mais que o dobro dos 22,3 kg do carro a combustão.

O alumínio fica fora da comparação, mas aparece no pacote da bateria e em alguns motores de indução. Conduz menos eletricidade (o cobre conduz cerca de 60% mais), mas pesa menos de um terço. Ele vem da bauxita: segundo o USGS, 4 toneladas de bauxita rendem 2 de alumina, que viram 1 tonelada de alumínio. O Brasil produziu cerca de 33 milhões de toneladas de bauxita em 2025, atrás de Guiné, Austrália e China.

De onde vêm esses minerais

Mineral Uso no carro Maiores produtores (2025, USGS) Brasil
Lítio bateria Austrália, China e Chile cerca de 12 mil t
Níquel bateria NMC Indonésia (2,6 de 3,9 milhões de t) cerca de 70 mil t
Cobalto bateria NMC Congo (73%) e Indonésia (14%) fora da lista
Manganês bateria NMC África do Sul, Gabão, Gana e Austrália cerca de 800 mil t de manganês contido
Grafita natural bateria China (82%) cerca de 65 mil t e a segunda maior reserva
Terras raras ímãs do motor China (270 mil de 390 mil t) cerca de 2 mil t
Cobre motor e bateria Chile, Congo e Peru fora da lista

Dois detalhes: a maior parte do manganês vai para a siderurgia, já que o consumo acompanha a indústria do aço, segundo o USGS. E a concentração não para na mina: a China fez mais de 80% das células de bateria do mundo em 2025, segundo a IEA. Para ver outros objetos que dependem de minas, leia Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.

E no Brasil?

Segundo a IEA, o Brasil vendeu cerca de 180 mil carros elétricos em 2025, ou 9% dos carros novos, contra 6,5% em 2024. É um dos poucos países onde se vendem mais híbridos plugáveis (com motor a combustão e bateria recarregável na tomada) que elétricos puros. Pouco menos de 85% desses carros foram fabricados na China. No mundo, as vendas passaram de 20 milhões em 2025, um em cada quatro carros novos.

A reciclagem resolve?

Ainda não. Segundo a IEA, quase todas as baterias de carros elétricos instaladas nos últimos anos seguem em uso e devem durar até meados da década de 2030. Há uma defasagem de cerca de 15 anos entre o crescimento da demanda e a chegada de grandes volumes de baterias velhas à reciclagem, que hoje recupera sobretudo sobras da fabricação. Enquanto isso, o consumo mundial de lítio cresceu 20% em 2025, segundo o USGS. Os limites da reciclagem estão em Mineração urbana: reciclar lixo eletrônico pode substituir minas?.

Perguntas frequentes

Quais são os minerais do carro elétrico?

Na bateria, lítio, níquel, cobalto, manganês e grafita, além de cobre e alumínio. No motor, terras raras como o neodímio e cobre. A lista exata depende da química da bateria e do tipo de motor.

Quanto lítio tem um carro elétrico?

No exemplo da IEA, com bateria NMC 622 de 75 kWh, cerca de 8,9 kg. A grafita (66,3 kg) e o níquel (39,9 kg) pesam bem mais no mesmo carro.

Toda bateria de carro elétrico tem cobalto?

Não. As baterias LFP não usam cobalto nem níquel e já são mais da metade das baterias de carros elétricos instaladas no mundo, segundo a IEA. As NMC usam cobalto, mas em proporção cada vez menor.

Todo carro elétrico usa terras raras?

A maioria usa, no ímã do motor. Motores de indução dispensam terras raras, mas gastam mais cobre e são menos eficientes.

O carro elétrico usa mais minerais que o carro a combustão?

Sim, cerca de seis vezes mais, sem contar aço e alumínio, segundo a IEA. Em troca, deixa de queimar combustível: a frota mundial de elétricos evitou o consumo de cerca de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia em 2025.

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Fontes

  1. IEA – The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions (maio de 2021)
  2. IEA – Minerals used in electric cars compared to conventional cars (gráfico, 5/5/2021)
  3. IEA – Global EV Outlook 2026: Executive summary (maio de 2026)
  4. IEA – Global EV Outlook 2026: Trends in electric cars (maio de 2026)
  5. IEA – Global EV Outlook 2026: Electric vehicle batteries (maio de 2026)
  6. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lithium (fevereiro de 2026)
  7. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Nickel (fevereiro de 2026)
  8. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Cobalt (fevereiro de 2026)
  9. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Manganese (fevereiro de 2026)
  10. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Graphite (fevereiro de 2026)
  11. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Copper (fevereiro de 2026)
  12. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths (fevereiro de 2026)
  13. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Bauxite and Alumina (fevereiro de 2026)

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