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Quais minerais tem no seu celular

Lítio, cobalto, estanho, tântalo, índio, cobre, ouro e terras raras: veja quais minerais tem no celular, em que parte do aparelho estão e de onde vêm.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Peças de um smartphone desmontado sobre papel quadriculado: tampa traseira, placa de circuito, bateria, tela, câmeras, motor de vibração e cabos flexíveis
Um smartphone desmontado: tampa, placa de circuito, bateria, tela e peças menores, como câmeras e o motor de vibração. Imagem: Dmitry G · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Quais minerais tem no celular? Muitos: o aparelho reúne lítio e cobalto na bateria, índio e estanho na tela, cobre, ouro, prata, estanho e tântalo na placa e terras raras nos ímãs do alto-falante. Cada um desses elementos saiu de uma mina, muitas vezes do outro lado do mundo, e alguns deles também são extraídos no Brasil. Este guia mostra o que está em cada parte do celular, de qual mineral vem cada elemento e por que o aparelho velho na gaveta interessa à mineração.

Em resumo

  • Um smartphone é um pequeno resumo da tabela periódica: tela, bateria, placa, ímãs e carcaça usam materiais diferentes.
  • A bateria de íons de lítio costuma usar lítio, cobalto e grafita. O lítio vem de salmouras ou de minerais como o espodumênio, que o Brasil extrai em Minas Gerais.
  • A placa leva cobre, ouro, prata, estanho e tântalo. O estanho vem da cassiterita, e o tântalo, da tantalita.
  • Vários desses minerais têm produção concentrada: o Congo produziu cerca de 73% do cobalto do mundo em 2025, e a China, 82% da grafita natural.
  • Celulares velhos são uma fonte de metais (a chamada mineração urbana), mas só 22,3% do lixo eletrônico do mundo foi coletado e reciclado de forma documentada em 2022.

O que tem em cada parte do celular

O site de divulgação de química Compound Interest organizou os principais elementos de um smartphone por componente. A tabela resume:

Parte Elementos principais Para que servem
Tela alumínio, silício, oxigênio, índio, estanho, terras raras vidro resistente, camada sensível ao toque e cores
Bateria lítio, cobalto, carbono (grafita), alumínio armazenar energia
Placa e chips silício, cobre, ouro, prata, estanho, tântalo processar dados, conduzir corrente, soldar peças
Alto-falante, microfone e vibração neodímio, ferro, boro, disprósio, praseodímio ímãs
Carcaça magnésio (ligas metálicas) ou plásticos estrutura e proteção

A composição pode variar de um modelo para outro. Por isso, a lista acima mostra elementos típicos, não a fórmula exata de um aparelho.

A tela: vidro, índio e terras raras

A tela é feita principalmente de vidro de aluminossilicato, uma mistura de óxido de alumínio e dióxido de silício. Sobre ele vai uma camada fina e transparente de óxido de índio e estanho (conhecido pela sigla em inglês ITO), que conduz eletricidade e permite que a tela responda ao toque. Pequenas quantidades de terras raras ajudam a produzir as cores.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a fabricação de ITO responde pela maior parte do consumo mundial de índio. O índio costuma ser obtido junto com o zinco: segundo o USGS, a fonte mais comum é a esfalerita, um sulfeto de zinco. A China respondeu por 70% da produção mundial de índio refinado em 2025.

A bateria: lítio, cobalto e grafita

A maioria dos celulares usa baterias de íons de lítio. Em geral, o polo positivo é feito de óxido de lítio e cobalto, e o negativo, de grafita (uma forma de carbono). A bateria costuma ficar dentro de um invólucro de alumínio.

Baterias são, de longe, o principal destino do lítio: o USGS estima que 88% do lítio consumido no mundo vai para elas, incluindo as de carros elétricos, de sistemas de armazenamento de energia e de aparelhos eletrônicos portáteis.

O lítio é extraído de dois tipos principais de depósito. No Chile, na Argentina e na Bolívia, ele vem de salmouras (águas muito salgadas) e depósitos de sais. No Brasil, na Austrália e no Zimbábue, vem de pegmatitos, um tipo de rocha granítica, onde aparece em minerais como o espodumênio.

Bloco de espodumênio, mineral claro com faixas brancas, esverdeadas e bege, sobre fundo preto
Amostra de espodumênio, um dos principais minerais de lítio, com cerca de 7 cm. Ela foi coletada perto de Keystone, em Dakota do Sul, nos Estados Unidos.Imagem: Shannon Heinle · CC0 · Wikimedia Commons

A placa: cobre, ouro, prata, estanho e tântalo

A placa de circuito é o “cérebro” do aparelho. O processador é feito de silício com pequenas quantidades de outros elementos. As ligações elétricas usam principalmente cobre, ouro e prata. A solda, que prende os componentes à placa, tradicionalmente levava estanho e chumbo. Hoje, as versões sem chumbo costumam combinar estanho, prata e cobre.

Já o tântalo aparece em capacitores minúsculos, peças que armazenam e liberam carga elétrica. Segundo o USGS, os capacitores eletrônicos são o principal uso do tântalo em aplicações de alto desempenho, incluindo celulares.

Ímãs e carcaça

O alto-falante, o microfone e o motor de vibração têm ímãs, geralmente de uma liga de neodímio, ferro e boro, muitas vezes com disprósio e praseodímio. Neodímio, disprósio e praseodímio fazem parte do grupo das terras raras. Para saber mais, leia Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas e Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

A carcaça pode ser de metal, como ligas de magnésio, ou de plástico, um material à base de carbono.

De onde vêm esses minerais

Os elementos do celular não saem prontos da mina. Em geral, estão dentro de um mineral (a cassiterita, por exemplo, é um óxido de estanho), e esse mineral precisa ser extraído e processado. A tabela mostra a origem de alguns elementos do celular, com dados de produção de mina estimados pelo USGS para 2025.

Elemento Principal fonte mineral Maiores produtores (2025) E o Brasil?
Lítio salmouras e espodumênio (pegmatitos) Austrália, China e Chile cerca de 12 mil toneladas, em Minas Gerais
Cobalto depósitos de cobre e de níquel Congo (73%) e Indonésia (14%) não aparece entre os produtores listados
Grafita natural grafita China (82%) cerca de 65 mil toneladas e a segunda maior reserva do mundo
Estanho cassiterita China e Indonésia cerca de 28 mil toneladas, sobretudo no Amazonas e em Rondônia
Tântalo tantalita (e coltan) Congo (cerca de metade do total) cerca de 190 toneladas
Índio esfalerita (minério de zinco) China (70% do refino) não aparece entre os produtores listados

Alguns detalhes ajudam a entender a tabela:

  • Lítio. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2023 o Brasil produziu concentrado de espodumênio em três minas de Minas Gerais: duas em Itinga e Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, e uma em Nazareno.
  • Estanho. Ainda segundo a ANM, em 2023 o Amazonas respondeu por 47,3% da produção nacional de concentrado de estanho, Rondônia por 31% e o Pará por 7,6%.
  • Tântalo. O mineral de origem é, principalmente, a tantalita. A mistura de columbita e tantalita ganhou o apelido de coltan. O USGS registra extração artesanal de coltan em países como Burundi, Congo, Nigéria, Ruanda e Uganda. O Brasil tem cerca de 40% dos recursos de tântalo já identificados no mundo, segundo estudo do USGS de 2017.
Amostra de cassiterita, mineral marrom-escuro e brilhante, misturado a quartzo claro, sobre fundo preto
Cassiterita (óxido de estanho), o principal minério de estanho, com quartzo. Amostra da coleção da Universidade de Dakota do Norte, nos Estados Unidos, de origem não informada.Imagem: Shannon Heinle · CC0 · Wikimedia Commons

A produção concentrada em poucos países ajuda a explicar por que esses elementos aparecem nas discussões sobre minerais críticos, tema que também chegou à política brasileira. Veja em Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos.

O celular velho na gaveta é uma mina?

Em certo sentido, sim. A ideia de recuperar metais de aparelhos descartados ganhou o nome de mineração urbana.

Um levantamento antigo do USGS, de 2006, dá uma noção do potencial. Com base em dados de uma recicladora, ele estimou que 1 tonelada de celulares obsoletos (sem bateria) continha em média 140 kg de cobre, 3,14 kg de prata, 300 g de ouro, 130 g de paládio e 3 g de platina. Os números se referem aos aparelhos de meados dos anos 2000 e não valem, necessariamente, para os smartphones atuais.

O problema é que pouca coisa volta para a indústria. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, relatório publicado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU, com parceiros:

  • o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, cerca de 7,8 kg por pessoa;
  • só 22,3% desse total foi coletado e reciclado de forma documentada;
  • a categoria de pequenos equipamentos de informática e telecomunicações, que inclui os celulares, somou 4,6 milhões de toneladas, com taxa de reciclagem documentada de 22%;
  • a reciclagem de lixo eletrônico atende no máximo 1% da demanda por terras raras;
  • a projeção é de 82 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2030.

No Brasil, o Decreto nº 10.240/2020 tornou obrigatória a logística reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico. Na prática, o consumidor deve entregar o aparelho, desligado e sem dados pessoais, em pontos de recebimento, e fabricantes e importadores precisam dar uma destinação ambientalmente adequada ao que for recolhido, de preferência a reciclagem.

A reciclagem ajuda, mas não elimina a mineração. O próprio USGS descreve o metal recuperado de celulares como um complemento ao metal extraído das minas, como mostramos em Mineração urbana: reciclar lixo eletrônico pode substituir minas?. E a demanda segue em alta: o consumo mundial de lítio, por exemplo, cresceu 20% em 2025, segundo o USGS. Para ver como outros objetos da casa também dependem de minas, leia Mineração no dia a dia: o que vem das minas e está na sua casa.

Perguntas frequentes

Quais minerais tem no celular?

Os principais elementos são lítio, cobalto e grafita (bateria), índio e estanho (tela), cobre, ouro, prata, estanho e tântalo (placa) e terras raras como o neodímio (ímãs). Eles vêm de minerais como espodumênio, cassiterita, tantalita e esfalerita.

Tem ouro no celular?

Tem, em quantidade pequena, nas ligações elétricas da placa. Um estudo do USGS de 2006 estimou cerca de 300 g de ouro por tonelada de celulares obsoletos da época, sem contar as baterias.

De onde vem o lítio da bateria do celular?

Vem de salmouras, como as do Chile e da Argentina, ou de minerais de rochas chamadas pegmatitos, como o espodumênio. Austrália, China e Chile foram os maiores produtores em 2025, segundo o USGS. O Brasil também produz, em Minas Gerais.

O Brasil produz algum mineral usado no celular?

Sim. O país produz lítio (espodumênio), estanho (cassiterita), tântalo e grafita, segundo o USGS e a ANM. Em grafita, tem a segunda maior reserva do mundo.

Reciclar celulares pode substituir a mineração?

Não totalmente. Os celulares descartados contêm metais valiosos, mas só uma parte do lixo eletrônico é reciclada, e a reciclagem atende no máximo 1% da demanda por terras raras. Por enquanto, ela complementa a mineração, sem substituí-la.

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Fontes

  1. Compound Interest – The chemical elements of a smartphone (19/2/2014)
  2. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lithium (fevereiro de 2026)
  3. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Cobalt (fevereiro de 2026)
  4. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Graphite (fevereiro de 2026)
  5. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Tin (fevereiro de 2026)
  6. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Tantalum (fevereiro de 2026)
  7. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Indium (fevereiro de 2026)
  8. USGS – Professional Paper 1802-M: Niobium and tantalum (2017)
  9. USGS – Professional Paper 1802-S: Tin (2017)
  10. USGS – Fact Sheet 2006-3097: Recycled cell phones, a treasure trove of valuable metals (julho de 2006)
  11. ANM – Sumário Mineral Brasileiro 2024: Lítio (ano-base 2023)
  12. ANM – Sumário Mineral Brasileiro 2024: Estanho (ano-base 2023)
  13. UIT (ONU) – Global E-waste Monitor 2024: comunicado de imprensa (20/3/2024)
  14. UIT (ONU) – The Global E-waste Monitor 2024
  15. Planalto – Decreto nº 10.240/2020 (logística reversa de eletroeletrônicos)

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