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Terras raras são radioativas? O que é mito e o que é verdade

As terras raras não são radioativas, mas o minério costuma trazer tório e urânio. De onde vem o risco, como é regulado no Brasil e o que é exagero.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Faixa de areia escura, quase preta, na beira do mar, com a espuma de uma onda à esquerda e areia mais clara ao fundo
Areia monazítica na beira do mar em Guarapari (ES). A cor escura vem dos minerais pesados, entre eles a monazita, que contém tório. Imagem: Marcelo Moryan/MTur · Domínio público · Wikimedia Commons

Terras raras são radioativas? Na prática, não: com uma exceção, o promécio, os elementos de terras raras não oferecem risco de radiação. O que costuma ser radioativo é o minério. Minerais como a monazita trazem junto tório e urânio, e é por causa deles que a mineração e, principalmente, o processamento das terras raras precisam de controle radiológico.

Em resumo

  • Os elementos de terras raras não são o problema. Só o promécio é de fato radioativo, e ele quase não existe na natureza.
  • O minério pode ser radioativo. A monazita tem, em geral, de 5% a 6% de óxido de tório, segundo o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM).
  • O risco cresce no processamento, quando o tório se concentra em resíduos que precisam ser guardados com segurança.
  • As argilas iônicas costumam ter muito menos tório e urânio do que os depósitos de monazita.
  • No Brasil, quem regula é a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), com regras que usam o limite de 10 Bq/g.

Os elementos de terras raras são radioativos?

Mito, com uma exceção. As terras raras são 17 elementos químicos (veja Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa). Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), a exceção é o promécio (número atômico 61), radioativo e quase ausente da natureza por ter meia-vida curta. (Meia-vida é o tempo para metade dos átomos se desintegrar.)

O promécio não tem nenhum isótopo estável, segundo o Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos, e só existe cerca de meio quilo dele na crosta terrestre. O isótopo mais duradouro, o promécio-145, tem meia-vida de 17,7 anos, segundo a IAEA.

Sendo rigoroso: alguns isótopos naturais de lantânio, samário e lutécio também se desintegram, mas com meias-vidas de 38 bilhões a 107 bilhões de anos. As regras de proteção radiológica, da IAEA e do Brasil, olham para as séries do urânio e do tório.

De onde vem a radioatividade: tório e urânio no minério

Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), as terras raras são extraídas principalmente de minérios que também contêm urânio e tório de forma natural. A quantidade varia muito:

Material Óxido de tório (ThO₂) Óxido de urânio (U₃O₈)
Monazita (mineral concentrado) 5% a 6% 0,2% a 0,3%
Minério de bastnasita (China e EUA) 0,02% a 0,1% 0,002% a 0,004%
Areias de minerais pesados 0,0006% a 0,4% 0,0003% a 0,006%
Argila com terras raras (China) 0,005% 0,005%
Solo comum (média mundial) 0,0008% 0,0003%

Fontes da tabela: CETEM (monazita) e IAEA (demais linhas).

Segundo a IAEA, a monazita tem o maior teor de tório entre os minerais de terras raras, enquanto a bastnasita, a maior fonte comercial, tem relativamente pouco. A monazita costuma ter cerca de 200 becquerels por grama (Bq/g) de tório-232. O becquerel mede quantos átomos se desintegram por segundo.

Cristal de monazita marrom-avermelhado, com faces planas e uma rachadura no meio, sobre fundo branco
Cristal de monazita de Iveland, na Noruega. É o mineral de terras raras com mais tório.Imagem: Aangelo · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Um detalhe importante: segundo a IAEA, o beneficiamento (a etapa que separa o mineral útil do resto) aumenta o teor de terras raras e, em geral, também o de elementos radioativos.

O que é NORM e TENORM

Duas siglas em inglês aparecem muito nesse assunto. Segundo a EPA:

  • NORM é o material radioativo de ocorrência natural, como rochas com urânio ou tório, do jeito que está na natureza.
  • TENORM é esse material quando foi concentrado ou exposto pela ação humana, como na mineração.

O resíduo de uma fábrica que separou o tório das terras raras é TENORM, e é aí que mora a maior parte do cuidado. A IAEA considera que, em geral, não é preciso regular materiais com menos de 1 Bq/g de elementos das séries do urânio e do tório.

Por que as argilas iônicas costumam ter menos tório

Nos depósitos de rocha dura, como os carbonatitos, o urânio e o tório ficam dentro dos mesmos minerais que guardam as terras raras, como a monazita e a xenotima. Segundo uma revisão científica de 2025, um dos motivos do interesse pelas argilas iônicas é justamente o baixo teor de urânio e tório.

O processo de extração ajuda. Nessas argilas, as terras raras estão presas de forma fraca na superfície das partículas e saem com uma solução de sal (veja Argila iônica: o tipo de depósito que pôs o Brasil no mapa das terras raras). Segundo a IAEA, essa lavagem é bastante seletiva e carrega poucas impurezas. É uma tendência, não uma garantia: cada depósito precisa ser medido.

Como isso é regulado no Brasil

Monopólio da União. Pelo artigo 177 da Constituição, a pesquisa, a lavra, a industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares são monopólio da União. A estatal da área é a Indústrias Nucleares do Brasil (INB).

O regulador. A Lei 14.222/2021 criou a ANSN a partir de uma divisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Segundo a própria ANSN, ela passou a funcionar com todas as atribuições em 29 de agosto de 2025, com a nomeação do seu diretor-presidente. A lei obriga quem encontrar urânio ou tório numa área de mineração a comunicar a ANSN.

A norma. A NN 4.01, editada pela CNEN em 2016, classifica minas e usinas que lidam com urânio e tório pela concentração de atividade:

Categoria Concentração de atividade O que a empresa apresenta
I acima de 500 Bq/g Relatório de análise de segurança radiológica
II de 100 a 500 Bq/g Planos de proteção dos trabalhadores, monitoração ambiental, rejeitos e descomissionamento
III de 10 a 100 Bq/g Informações preliminares sobre minério, mina e resíduos

Fica isenta a instalação com média anual de até 10 Bq/g em três anos de operação, desde que os trabalhadores não recebam mais de 1 milissievert (mSv) por ano.

Com esse critério, em 31 de agosto de 2026, a ANSN isentou de controle radiológico a planta-piloto do Projeto Caldeira, em Poços de Caldas (MG), porque todas as amostras ficaram abaixo de 10 Bq/g, segundo o Diário do Comércio. Veja Projeto Caldeira, em Poços de Caldas: o que a compra pela Lynas significa.

As areias monazíticas e o Brasil

Segundo o CETEM, a produção de terras raras no país começou no fim da década de 1940, na Usina Santo Amaro, na cidade de São Paulo, com monazita das areias de Buena, no norte do estado do Rio de Janeiro. Em 1960, por causa do urânio e do tório da monazita, as atividades passaram para a CNEN e, depois de várias mudanças, chegaram à INB, que explorou por décadas areias do norte do Rio, do sul do Espírito Santo e do sul da Bahia.

Segundo a INB, a unidade de Buena, em São Francisco de Itabapoana (RJ), separava e vendia ilmenita, zirconita, rutilo e monazita, e em 2024 teve o uso cedido por 30 anos à ADL Mineração e Participações. Os outros tipos de depósito do país estão em Terras raras no Brasil: onde estão e quais projetos existem.

Uma curiosidade: as areias pretas de Guarapari (ES). A Praia da Areia Preta tem areia escura com monazita. Segundo pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a cidade é conhecida internacionalmente por esse tipo de areia, que historicamente foi associada a supostas propriedades terapêuticas. A equipe mediu a radiação da praia entre setembro de 2024 e junho de 2025 e viu que ela varia ao longo do tempo.

Onde estão os riscos reais

No processamento. Segundo a EPA, separar as terras raras envolve retirar o urânio e o tório, e é isso que gera os resíduos do tipo TENORM.

O passivo brasileiro. Segundo a IAEA, a usina de Santo Amaro funcionou de 1949 a 1992 e, nesse tempo, os resíduos foram guardados e transportados sem medidas de proteção radiológica, o que contaminou o solo. Na desmontagem, entre 1994 e 1998, saíram 532 toneladas de resíduo de hidróxido de tório, em 3.250 tambores.

A polêmica da Lynas na Malásia. A Lynas, que anunciou a compra do Projeto Caldeira, separa terras raras em Kuantan, na Malásia, desde 2012. Em 2014, uma equipe da IAEA concluiu que os riscos radiológicos da fábrica eram baixos, mas recomendou definir um destino final para os resíduos. O governo malaio foi mais duro: segundo o ministério de Ciência do país, a fábrica gerou cerca de 1,08 milhão de toneladas de resíduo radioativo até o fim de 2022, e “nenhuma parte tem o direito de produzir continuamente resíduo radioativo” ali.

A licença de 2020 exigiu que a etapa que gera esse resíduo (craqueamento e lixiviação) tivesse uma fábrica fora da Malásia até julho de 2023, segundo a Lynas. Em outubro de 2023, a regra foi flexibilizada: a etapa pode continuar no país se o resíduo tiver menos de 1 Bq/g, segundo o jornal The Star. A fábrica australiana, em Kalgoorlie, começou a produzir em 2024, segundo a empresa.

Como esses riscos são controlados

A IAEA recomenda um controle proporcional ao risco: medir a radioatividade dos materiais, controlar a dose dos trabalhadores (que vem da radiação gama, da poeira e do torônio, um gás da cadeia do tório), monitorar o ambiente e guardar os resíduos em depósitos projetados. No Brasil, esses itens aparecem nos planos exigidos pela NN 4.01.

A lição de Santo Amaro é que o risco não está na terra rara em si, e sim em resíduos mal gerenciados por muito tempo. Para outras dúvidas comuns, veja Mitos e verdades sobre a mineração: o que é exagero e o que é real.

Perguntas frequentes

Terras raras são radioativas?

Os elementos de terras raras, na prática, não. A exceção é o promécio, que não tem isótopo estável e quase não existe na natureza. A radioatividade vem do tório e do urânio que costumam acompanhar o minério.

Produtos feitos com terras raras são radioativos?

Em geral, muito pouco. Segundo a IAEA, alguns compostos já separados têm radioatividade residual, conforme a pureza, mas nenhum caso relatado passava de 10 Bq/g. A maior preocupação está nos minérios e nos resíduos.

Por que a monazita é radioativa?

Porque contém tório e um pouco de urânio. Segundo o CETEM, ela tem em geral de 5% a 6% de óxido de tório e de 0,2% a 0,3% de óxido de urânio.

Quem fiscaliza a radioatividade na mineração de terras raras no Brasil?

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), criada pela Lei 14.222/2021 a partir da CNEN. Ela aplica a norma NN 4.01, que isenta instalações com até 10 Bq/g e faz exigências maiores conforme a radioatividade aumenta.

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Fontes

  1. IAEA – Radiation Protection and NORM Residue Management in the Production of Rare Earths from Thorium Containing Minerals, Safety Reports Series nº 68 (2011)
  2. IAEA – Live Chart of Nuclides (meias-vidas de Pm-145, La-138, Sm-147 e Lu-176, consulta em 26/10/2026)
  3. Oak Ridge National Laboratory, via Phys.org – Promethium bound: Rare earth element's secrets exposed (22/5/2024)
  4. EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) – Technologically Enhanced Naturally Occurring Radioactive Materials (TENORM)
  5. EPA – TENORM: Rare Earths Mining Wastes
  6. CETEM – Rochas e Minerais Industriais, capítulo 36: Terras Raras (2008)
  7. Russo et al. – The fundamentals of rare earth element ion adsorption clay deposits, Journal of Geochemical Exploration, v. 278 (2025)
  8. Constituição Federal de 1988, art. 177
  9. Lei nº 14.222/2021 (cria a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear)
  10. ANSN – apresentação na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados (30/9/2025)
  11. CNEN – Norma CNEN NN 4.01: Requisitos de segurança e proteção radiológica para instalações mínero-industriais (Resolução CNEN 208/2016)
  12. Diário do Comércio – ANSN isenta planta piloto de terras raras da Meteoric de controle regulatório (4/9/2026)
  13. INB – Unidade de Buena
  14. Silva et al. (UFES) – Análise do perfil radiométrico dinâmico da Praia da Areia Preta, XV Encontro Científico de Física Aplicada (2025)
  15. IAEA – IAEA concludes follow-up review of Malaysia rare earth plant, comunicado (17/10/2014)
  16. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação da Malásia (MOSTI) – Lynas License Renewal: no more radioactive waste can be produced by Lynas in Malaysia (15/2/2023)
  17. Lynas Corporation – Lynas Malaysia operating licence renewed for three years, comunicado à ASX (27/2/2020)
  18. The Star – Lynas' licensing terms revised (25/10/2023)
  19. Lynas Rare Earths – Relatório anual 2024 (outubro de 2024)

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