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Notícias da MineraçãoNotícia explicada

Projeto Caldeira, em Poços de Caldas: o que a compra pela Lynas significa

A australiana Lynas fechou acordo para comprar a Meteoric, dona do Projeto Caldeira, de terras raras em Poços de Caldas (MG). O negócio e o que falta.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

8 min de leitura

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Vista do alto da cidade de Poços de Caldas, com prédios e casas no vale e morros ao fundo
Poços de Caldas (MG) vista da serra. O Projeto Caldeira fica entre Caldas, Poços de Caldas e Andrades, no Sul de Minas. Imagem: Marcos Cardoso Jr · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

O Projeto Caldeira, de terras raras em argila iônica perto de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, vai mudar de dono se o negócio for aprovado. Em 1º de outubro de 2026, a australiana Lynas Rare Earths anunciou um acordo para comprar 100% da Meteoric Resources, a empresa que desenvolve o projeto. Abaixo, explicamos o que foi acertado, por que isso importa, os pontos a favor e os de atenção, e o que ainda precisa acontecer.

O que aconteceu

Segundo o comunicado conjunto das duas empresas à bolsa australiana (ASX), a compra será feita por um esquema de incorporação aprovado pela Justiça australiana, pago só em ações: cada ação da Meteoric será trocada por 0,0207 ação nova da Lynas. Não há pagamento em dinheiro aos acionistas.

Quanto vale o negócio?

O número oficial é 968 milhões de dólares australianos (A$ 968 milhões). Ele foi calculado pelas empresas com base no preço médio da ação da Lynas nos 60 dias anteriores a 30 de setembro de 2026 (A$ 15,29) e no total de ações da Meteoric, incluindo direitos e opções.

Na imprensa, o mesmo valor apareceu de outras formas:

Como foi noticiado O que é
A$ 968 milhões Valor do comunicado oficial das empresas
Cerca de US$ 672 milhões O mesmo valor convertido para dólar americano
Cerca de R$ 3,5 bilhões O mesmo valor convertido para real (InvestNews)

Ou seja, não são três negócios diferentes: é uma única cifra em três moedas. Como o pagamento é em ações, o valor final também depende de quanto a ação da Lynas valer no dia da conclusão.

Além disso, a Lynas vai emprestar à Meteoric até A$ 110 milhões, sem garantia, para manter o projeto andando enquanto o negócio não é concluído. A primeira parcela, de A$ 35 milhões, fica disponível logo após a assinatura.

O projeto em números

Segundo a Meteoric, o Caldeira tem:

  • 77 licenças minerárias e de pesquisa, somando mais de 18 mil hectares entre Caldas, Poços de Caldas e Andrades, a cerca de 254 km de São Paulo;
  • recurso mineral de cerca de 1,6 bilhão de toneladas e reserva de 151 milhões de toneladas, com teor médio de 3.524 ppm de óxidos de terras raras. A diferença entre recurso e reserva está explicada em Quanto o Brasil tem de terras raras? Por que os números mudam;
  • um estudo de viabilidade definitivo (DFS, na sigla em inglês) publicado em 31 de julho de 2026, com investimento inicial estimado em US$ 498 milhões, vida útil inicial de mais de 20 anos e processamento de 6 milhões de toneladas de minério por ano;
  • produção média prevista de 3.862 toneladas por ano de NdPr (neodímio e praseodímio, usados em ímãs permanentes) e 127 toneladas por ano de DyTb (disprósio e térbio, as terras raras pesadas que deixam os ímãs resistentes ao calor).

O produto planejado é um carbonato misto de terras raras: um concentrado em que os elementos ainda estão misturados. A separação de cada elemento é uma etapa posterior.

Por que importa

A Lynas não é uma compradora qualquer. Ela se apresenta como a única produtora comercial de óxidos separados de terras raras leves e pesadas fora da China. A empresa extrai minério em Mt Weld, na Austrália, e separa os elementos numa fábrica em Kuantan, na Malásia. A Morningstar, empresa de análise de investimentos, a descreve como a maior produtora de terras raras fora da China.

Para o Brasil, a compra traz para o país uma empresa com experiência justamente na etapa que falta aqui: a separação, onde está boa parte do valor. Para entender por que essa etapa é tão disputada, leia Terras raras: o que são, para que servem e por que o Brasil importa.

Mas a separação no Brasil ainda não está decidida. O comunicado oficial diz apenas que a Lynas “vai fazer estudos” sobre processamento adicional no Brasil e cita também a possibilidade de integrar o Caldeira às operações da Malásia. Segundo o portal O Fator, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse ter sido informado por executivos da Lynas de que a empresa prevê uma planta de separação na região de Poços de Caldas. Na conversa com investidores no mesmo dia, porém, o vice-presidente de Estratégia da Lynas, Daniel Havas, evitou confirmar: “Não há nada definido de forma imutável”.

Há ainda o BNDES. No comunicado, o presidente executivo do conselho da Meteoric, Andrew Tunks, afirmou que a Lynas conversou diretamente com o governo federal e com o banco “para garantir que não haja atraso” no projeto. Segundo O Fator, Havas citou o interesse do BNDES em eventualmente financiar uma planta industrial da empresa no país.

Prós e contras

Pontos a favor

  • Dinheiro e experiência. A Lynas tinha A$ 1,2 bilhão em caixa e aplicações de curto prazo em junho de 2026, segundo o comunicado, e opera há anos uma cadeia completa de terras raras.
  • Projeto já estudado. O DFS, a licença prévia e a planta-piloto reduzem incertezas técnicas.
  • Sem barragem de rejeitos. Segundo a Meteoric, a argila já processada será empilhada a seco e devolvida às cavas já mineradas. Nos testes da planta-piloto, cerca de 85% da água foi recuperada.
  • Empregos. A empresa estima cerca de 1.200 vagas na construção e 520 permanentes na operação.

Pontos de atenção

  • Controle estrangeiro. O projeto passaria a uma empresa australiana. Segundo o comunicado das empresas, a mudança de controle depende da aprovação do conselho criado pela Lei 15.506/2026.
  • Separação incerta. Sem uma planta no Brasil, o país exportaria o concentrado e o valor da etapa seguinte ficaria lá fora.
  • Água e área protegida. No licenciamento, as principais dúvidas foram sobre os aquíferos de águas minerais da região, segundo O Fator. O Ministério Público Federal (MPF) apontou ainda sobreposição com a Área de Proteção Ambiental (APA) da Pedra Branca, em Caldas. A Meteoric afirma que não há atividade prevista dentro da APA, só na faixa de 3 km ao redor dela, onde a mineração é permitida.
  • Vizinhança nuclear. Em Caldas fica a Unidade de Descomissionamento de Caldas, das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), antiga instalação de urânio com rejeitos radioativos. Em novembro de 2025, o MPF pediu estudos sobre o risco de o processo capturar tório e urânio e cobrou consulta prévia a comunidades indígenas e quilombolas da região. A Meteoric responde que a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) confirmou, em ofícios de 2025, que o projeto não oferece risco radiológico nem interfere na unidade da INB, e que as comunidades indígenas ficam a mais de 8 km e não devem ser afetadas.

A decisão sobre a planta-piloto

A Meteoric opera, em Poços de Caldas, um laboratório e uma planta-piloto que começou a funcionar no fim de 2025 e transforma argila em carbonato misto de terras raras. Em 31 de agosto de 2026, a ANSN comunicou à empresa que a unidade está isenta de controle regulatório radiológico. Segundo o Diário do Comércio, a decisão veio após vistoria em 16 de junho e se baseou na Norma ANSN 4.01: todas as amostras ficaram abaixo de 10 Bq/g (becquerel por grama, a medida de atividade radioativa). A ANSN informou que a classificação será retomada nas próximas fases do projeto.

E agora?

O negócio ainda depende de várias etapas, segundo o comunicado de 1º de outubro:

  1. Parecer de um especialista independente dizendo que a venda é boa para os acionistas da Meteoric.
  2. Aprovação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, criado pela Lei 15.506/2026, para a mudança de controle.
  3. Assembleia de acionistas da Meteoric, prevista para janeiro de 2027. É preciso 75% dos votos e a maioria dos acionistas presentes. O conselho da Meteoric recomenda o sim, e o maior acionista, com cerca de 6,7%, declarou apoio.
  4. Aprovação da Justiça australiana.

O documento com os detalhes deve chegar aos acionistas em dezembro de 2026, e a conclusão é esperada até março de 2027. As próprias empresas dizem que essas datas são indicativas.

Em paralelo, o licenciamento segue. A licença prévia (LP) foi aprovada por unanimidade pela Câmara de Mineração do Copam em 19 de dezembro de 2025, depois de uma sessão de cerca de nove horas. O pedido de licença de instalação (LI), que autoriza a obra, foi entregue em 2026, e a Meteoric espera a decisão no último trimestre de 2026. Até a data deste texto, não encontramos anúncio de que a LI tenha sido concedida. Depois dela, vêm a decisão final de investimento, cerca de 24 meses de obras e a licença de operação.

Também mudou o prazo com a Togni, a empresa que detém os direitos minerários e cedeu à Meteoric a exploração das terras raras. O limite para começar a produzir passou de abril de 2031 para abril de 2033.

Para entender por que projetos como este ganharam tanto espaço no debate, leia Por que todo mundo está falando de terras raras?. O MineraMente vai acompanhar os próximos passos.

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Fontes

  1. Lynas Rare Earths e Meteoric Resources – Lynas Rare Earths to acquire Meteoric Resources, comunicado conjunto à ASX (1/10/2026)
  2. Meteoric Resources – Caldeira DFS Confirms Confidence in Project Fundamentals, comunicado à ASX (31/7/2026)
  3. Meteoric Resources – Preliminary Environmental License Approved Without Restriction, comunicado à ASX (22/12/2025)
  4. Meteoric Resources – Caldeira Project Licensing Update, comunicado à ASX (18/6/2026)
  5. Meteoric Resources – Relatório financeiro semestral até 30/6/2026 (setembro de 2026)
  6. Lynas Rare Earths – About us
  7. Morningstar – ASX rare earths play looks to expand production (outubro de 2026)
  8. InvestNews – Australiana Lynas compra mineradora por R$ 3,5 bilhões e entra no mercado de terras raras do Brasil (1/10/2026)
  9. O Fator – O que a Lynas diz sobre planos de separar terras raras no Brasil (1/10/2026)
  10. O Fator – Órgão nuclear da União isenta planta de terras raras em Poços de Caldas de controle regulatório (3/9/2026)
  11. Diário do Comércio – ANSN isenta planta piloto de terras raras da Meteoric de controle regulatório (4/9/2026)
  12. O Fator – Copam aprova licença prévia para projetos de terras raras da Viridis e da Meteoric no Sul de Minas (19/12/2025)
  13. Ministério Público Federal em MG – MPF recomenda a retirada de pauta de votação de processos de licenciamento sobre terras raras em MG (25/11/2025)

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