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Lítio no Vale do Jequitinhonha: oportunidades e problemas

Lítio no Vale do Jequitinhonha: investimentos, PIB e royalties de um lado; poeira, rachaduras, água e consulta a quilombolas do outro. Entenda o debate.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Paisagem seca com solo claro e pedregoso, capim amarelado, árvores sem folhas e um morro rochoso ao fundo, sob céu azul
Paisagem de caatinga na estação seca no Vale do Jequitinhonha (MG). A foto mostra a região, não uma área de mineração. Imagem: A. Duarte · CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons

O lítio no Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, trouxe investimentos, royalties e um salto no PIB de Araçuaí e Itinga. Também trouxe queixas de poeira, barulho, casas rachadas por detonações, preocupação com a água e um embate na Justiça sobre a consulta a comunidades quilombolas. Os dois lados são reais. Aqui, cada dado vem com sua fonte: órgão público, reportagem ou empresa.

Em resumo

  • As minas de lítio em operação no Vale ficam em Araçuaí e Itinga: a da CBL, subterrânea, e a da Sigma, a céu aberto, segundo a ANM.
  • Segundo o governo de Minas, o projeto Vale do Lítio atraiu R$ 6,9 bilhões em investimentos privados desde 2023. Dados do IBGE mostram que o PIB de Araçuaí dobrou entre 2021 e 2023.
  • Moradores vizinhos da mina da Sigma relatam poeira, ruído e rachaduras. Um relatório do Ministério Público de Minas, citado pela Agência Pública, aponta que 50% dos entrevistados dizem ter rachaduras em casa.
  • O MPF diz que 248 comunidades tradicionais e quilombolas em 19 municípios do Vale são impactadas e cobra consulta prévia.
  • Em 2026, a mina da Sigma teve as atividades suspensas pelo órgão ambiental e pela Justiça e voltou a operar. A empresa nega irregularidades.

Onde fica o lítio do Jequitinhonha

O lítio do Vale sai do espodumênio, mineral de rochas chamadas pegmatitos (o básico sobre o metal está em Lítio: o que é, para que serve e onde o Brasil produz). Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), duas minas da região produzem concentrado de espodumênio:

Mina Empresa Município Tipo de lavra
Mina da Cachoeira Companhia Brasileira de Lítio (CBL) Itinga e Araçuaí subterrânea
Grota do Cirilo Sigma Mineração (Sigma Lithium) Itinga a céu aberto

Fonte: ANM, Sumário Mineral 2025. Reportagens e decisões judiciais situam o complexo da Sigma entre Itinga e Araçuaí.

A diferença no método pesa no debate: a lavra a céu aberto abre uma cava na superfície, com detonações e grandes pilhas de rocha sem valor (o estéril). Veja mais em Mina a céu aberto ou subterrânea: quais são as diferenças.

Pelo Censo 2022 do IBGE, Araçuaí tinha 34.297 habitantes e Itinga, 13.745. A CBL diz operar no Vale há mais de três décadas. A Sigma chegou à região em 2012 e começou a produzir em 2023, segundo a Agência Pública.

As oportunidades: investimento, PIB e royalties

Investimentos. Em 2023, o governo de Minas lançou o projeto Vale do Lítio em Nova York, na bolsa Nasdaq, para atrair mineradoras. Segundo a Agência Minas, do governo estadual, até maio de 2026 a iniciativa atraiu R$ 6,9 bilhões em investimentos privados, com previsão de cerca de 6 mil empregos.

PIB. Os dados do IBGE confirmam o salto citado pelo governo. Entre 2021 e 2023, em valores correntes (sem descontar a inflação):

Município PIB 2021 PIB 2023 Variação
Araçuaí R$ 520,0 milhões R$ 1,08 bilhão +108%
Itinga R$ 148,3 milhões R$ 283,6 milhões +91%

Fonte: IBGE, PIB dos Municípios.

O PIB mede o valor produzido no município. Ele não mostra, sozinho, quanto dessa riqueza fica com os moradores.

Royalties. As mineradoras pagam a CFEM, a compensação financeira pela exploração mineral, que funciona como um royalty. Segundo a Agência Pública, com dados da ANM, a Sigma pagou R$ 9,5 milhões em 2023, R$ 12,5 milhões em 2024 e nada em 2025, ano em que enfrentou a queda do preço do lítio. Itinga recebeu só 10% dos R$ 11,2 milhões em royalties que previa para 2025. No país todo, a CFEM do lítio caiu 56,3% em 2024, para R$ 24,1 milhões, puxada pelos preços, segundo a ANM.

Os prefeitos de Araçuaí e Itinga apoiam a mineração, segundo a Agência Pública. O de Araçuaí falou em “um paradoxo de coisas boas e ruins”: mais emprego e investimento, mas também pressão sobre aluguéis, saúde e educação.

Os problemas relatados

Poeira, ruído e rachaduras

A comunidade mais citada é Piauí Poço Dantas, colada à mina da Sigma, entre Araçuaí e Itinga. Segundo a Agência Pública, moradores atribuem rachaduras nas casas às detonações e se queixam de problemas respiratórios e de dificuldade para dormir.

A reportagem cita um relatório do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) feito com entrevistas a moradores atingidos:

  • 100% dizem ser afetados pelo ruído; 70% o consideram alto ou muito alto;
  • 76% reclamam da poeira, e 55% apontam impacto na saúde;
  • 89% dizem sentir as detonações;
  • 50% relatam rachaduras em casa.

São percepções dos entrevistados, não medições. Em maio de 2026, numa liminar (decisão provisória), uma juíza estadual escreveu que os relatos de moradores mostravam “um quadro de violação massiva da dignidade humana”, segundo a Bloomberg Línea.

A Sigma contesta. Segundo comunicado da empresa citado pela Bloomberg Línea em junho de 2026, evidências coletadas por especialistas independentes refutaram as alegações dos promotores. Como esses impactos costumam ser controlados está em Impactos ambientais da mineração: quais são e como podem ser reduzidos.

Água

A água é um ponto sensível, sobretudo nos períodos de estiagem. Segundo o MPF, um laudo técnico do órgão apontou deficiências no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela Sigma em 2021. A preocupação é o rebaixamento do nível d’água para abrir as cavas e seu efeito sobre o Ribeirão Piauí, principal fonte de abastecimento dos moradores do entorno, segundo o laudo.

A Sigma diz em seu site que não usa água potável, não tem barragem de rejeitos nem usa produtos químicos perigosos. Segundo a Agência Pública, a empresa entrega água a moradores de Poço Dantas, que reclamam da qualidade.

A ciência ainda tem lacunas. Segundo a revista Pesquisa FAPESP, um estudo de 2025 achou alumínio na água acima do limite de potabilidade em amostras de 2008 e 2009 perto de Araçuaí e Itinga, antes da produção da Sigma, mas com valores perto da mina parecidos com os do resto da região. O dado pede acompanhamento, mas não separa o que é natural do que vem da mineração.

Comunidades tradicionais e consulta prévia

Em setembro de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou à ANM que suspendesse e revisasse as autorizações de pesquisa e extração de lítio em Araçuaí e cidades vizinhas. Segundo o MPF:

  • 248 comunidades em 19 municípios do Vale foram identificadas como impactadas, por sobreposição de processos minerários ou por infraestrutura de mineração;
  • elas não foram ouvidas em consulta prévia, livre e informada, direito previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT);
  • a ANM respondeu ao MPF que a legislação mineral não prevê essa consulta, posição que o MPF contesta.

Licenças na Justiça: o vaivém de 2026

A mina Grota do Cirilo foi licenciada pelo governo de Minas (o passo a passo desse processo está em Licenciamento ambiental da mineração: como funciona, passo a passo). Em 2026, as licenças viraram alvo de várias decisões:

  • Maio. Em ação do MPMG, uma juíza estadual mandou a Sigma depositar R$ 50 milhões para garantir eventuais indenizações, suspender atividades ruidosas entre 22h e 6h e financiar medidas de saúde, segundo a Bloomberg Línea.
  • Junho. Segundo a Sigma, o Tribunal de Justiça de Minas derrubou essa decisão.
  • Julho e agosto. A autoridade ambiental embargou a mina após uma inspeção, feita no fim de maio, constatar violações, segundo a Bloomberg Línea. A empresa negou irregularidades e voltou a operar em agosto, depois de um acordo com o Estado.
  • Setembro. A Justiça Federal em Teófilo Otoni suspendeu as licenças, a pedido da Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais (N’Golo). O ponto central é a distância até o Quilombo do Baú: a Sigma diz que a mina fica fora do raio de 8 km que exige estudos específicos; o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apontou 2,3 km da área diretamente afetada, segundo o Diário do Comércio. A Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) publicou a suspensão em 24 de setembro.
  • Outubro. O Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) restabeleceu três licenças, e a Sigma anunciou a retomada completa em 6 de outubro. A licença de ampliação segue suspensa até uma perícia definir a distância até o quilombo, segundo o Diário do Comércio.
Linha do tempo de 2012 a outubro de 2026 com os marcos da mina Grota do Cirilo: chegada da Sigma, lançamento do Vale do Lítio, início da operação, recomendação do MPF, liminares, embargo, suspensão e retomada das licenças
Principais marcos da mina Grota do Cirilo e das ações na Justiça, segundo MPF, Agência Pública, Bloomberg Línea, Band e Diário do Comércio.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Os processos seguem em andamento, e decisões provisórias podem mudar.

O que o caso ensina

Royalties e empregos dependem do preço e da produção, que oscilam; os impactos de vizinhança aparecem enquanto a mina opera. Por isso o debate no Vale gira em torno de licenciamento bem feito, monitoramento independente e consulta às comunidades. A demanda que puxa esse lítio está em Os minerais do carro elétrico: da bateria ao motor, e outros pontos polêmicos do setor, em Mitos e verdades sobre a mineração.

Perguntas frequentes

A mineração de lítio trouxe desenvolvimento para a região?

Trouxe investimento e fez o PIB de Araçuaí e Itinga quase dobrar entre 2021 e 2023, segundo o IBGE. Mas os royalties oscilaram com o preço do lítio, e moradores vizinhos relatam impactos.

Por que se fala em rachaduras nas casas?

Moradores de comunidades vizinhas à mina da Sigma atribuem rachaduras às detonações. Em relatório do MPMG citado pela Agência Pública, 50% dos entrevistados relatam o problema. A Sigma contesta e diz que especialistas independentes refutaram as alegações.

O que é a consulta prévia e por que ela entrou no caso?

É o direito de indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais de serem ouvidos antes de projetos que os afetem, previsto na Convenção 169 da OIT. O MPF e uma federação quilombola dizem que ela faltou; a Sigma diz que a mina fica fora da área que a exige.

A mina da Sigma está funcionando?

Segundo o Diário do Comércio, a Sigma retomou as operações em 6 de outubro de 2026, depois que o TRF-6 restabeleceu três licenças. A ampliação continua suspensa até uma perícia sobre a distância até o Quilombo do Baú.

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Fontes

  1. ANM – Sumário Mineral 2025: Lítio (ano-base 2024)
  2. Agência Minas (Governo de Minas Gerais) – Vale do Lítio completa três anos marcados por avanço no PIB de municípios do Jequitinhonha (9/5/2026)
  3. IBGE – Censo Demográfico 2022, população residente (Sidra, tabela 4709), Araçuaí e Itinga
  4. IBGE – PIB dos Municípios, PIB a preços correntes 2021 e 2023 (Sidra, tabela 5938), Araçuaí e Itinga
  5. Agência Pública – Exploração de lítio no Jequitinhonha tem mais casas rachadas do que promessas cumpridas (16/12/2025)
  6. Ministério Público Federal – MPF recomenda consulta prévia a povos tradicionais e suspensão de mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha (9/9/2025)
  7. Bloomberg Línea – Juíza determina depósito de R$ 50 milhões da Sigma por danos de mina de lítio em MG (18/5/2026)
  8. Bloomberg Línea – Sigma obtém vitória judicial e reduz risco para expandir exploração de lítio no Brasil (9/6/2026)
  9. Bloomberg Línea – Tribunal suspende licenças e interrompe atividades de mina da Sigma Lithium em MG (6/9/2026)
  10. Diário do Comércio – Justiça Federal paralisa atividade de mina de lítio em Minas Gerais (7/9/2026)
  11. Band – Feam suspende licenças ambientais no Vale do Jequitinhonha (24/9/2026)
  12. Diário do Comércio – Sigma Lithium retoma operações no Vale do Jequitinhonha (6/10/2026)
  13. Pesquisa FAPESP – Exploração de lítio amplia contaminação do solo e da água em Minas Gerais (13/12/2025)
  14. Sigma Lithium – página institucional (consultada em 26/10/2026)
  15. Companhia Brasileira de Lítio (CBL) – página institucional (consultada em 26/10/2026)

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