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Mineração urbana: reciclar lixo eletrônico pode substituir minas?

Mineração urbana é recuperar metais de eletrônicos e baterias descartados. Veja quanto ela já supre, onde funciona bem e por que ainda não substitui as minas.

Por Ingrid Calazans, Eng.ª de Minas

9 min de leitura

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Pedaços de placas de circuito, fios, capacitores e outros componentes eletrônicos triturados, empilhados dentro de uma caixa transparente
Placas de circuito e componentes eletrônicos triturados para reciclagem, expostos em uma feira em Minnesota, nos Estados Unidos. Imagem: Tony Webster · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Mineração urbana é o nome dado à recuperação de metais a partir de produtos descartados, como celulares, computadores, baterias e carros velhos. A resposta curta à pergunta do título é não: hoje a reciclagem não substitui as minas e, segundo as projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), também não vai substituí-las nas próximas décadas. Mas ela já supre uma parte importante de alguns metais, como chumbo, cobre e ouro, e pode reduzir bastante a necessidade de minas novas.

Em resumo

  • O mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, com 31 milhões de toneladas de metais dentro, mas só 22,3% desse lixo foi coletado e reciclado com registro oficial.
  • A reciclagem já funciona bem para chumbo de baterias, cobre, alumínio e metais preciosos, quando o material chega às usinas certas.
  • Para terras raras, ela atende no máximo 1% da demanda, e lítio e germânio quase não são recuperados do lixo eletrônico.
  • A IEA calcula que a reciclagem pode reduzir de 25% a 40% a necessidade de minas novas até 2050, mas não eliminá-la.
  • No Brasil, a coleta registrada ainda é baixa, e a Lei 15.506/2026 passou a incentivar a mineração urbana.

O que é mineração urbana

A ideia é tratar o lixo como uma jazida. A Lei 15.506/2026, que criou a política brasileira de minerais críticos, define a mineração urbana como um processo de “coleta, desmontagem, separação, beneficiamento e refino” para recuperar minerais de resíduos eletroeletrônicos, baterias, veículos em fim de vida, entulho de construção e aterros. Veja mais em Lei 15.506/2026: o que muda com a nova política de minerais críticos.

Quanto metal existe no lixo eletrônico

Bastante. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, relatório da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (Unitar), o lixo eletrônico gerado no mundo em 2022 tinha cerca de 31 milhões de toneladas de metais, sobretudo ferro, alumínio e cobre, e 1,6 mil toneladas de metais preciosos, como prata, ouro e paládio. Tudo isso valia US$ 91 bilhões, dos quais US$ 19 bilhões em cobre e US$ 15 bilhões em ouro.

Só US$ 28 bilhões em materiais foram recuperados, a maior parte em ferro. Mesmo assim, o relatório estima que a reciclagem registrada evitou a extração de 900 milhões de toneladas de minério em 2022. Para ver em que parte de um aparelho cada metal fica, leia Quais minerais tem no seu celular.

Gráfico de barras: 22,3% do lixo eletrônico coletado e reciclado com registro; cerca de 61% dos metais recuperados; cerca de 19% dos metais preciosos; reciclagem atende no máximo 1% da demanda por terras raras
O que volta do lixo eletrônico para a indústria, no mundo, em 2022, segundo o Global E-waste Monitor 2024.Imagem: MineraMente · Ilustração própria

Dos 31 milhões de toneladas de metais, cerca de 19 milhões foram recuperados, e 12 milhões se perderam, no próprio processo de reciclagem ou em lixões e reciclagem sem controle. Nos metais preciosos, a recuperação ficou em cerca de 300 toneladas, menos de um quinto do total.

Onde a reciclagem já funciona bem

Alguns metais têm reciclagem antiga e eficiente. A tabela mistura dados mundiais e dos Estados Unidos, porque nem todos existem em escala global.

Metal O que dizem os dados Fonte
Chumbo Nos EUA, o chumbo secundário equivaleu a 70% do consumo em 2025, quase todo vindo de baterias chumbo-ácido. A taxa de reciclagem dessas baterias no país chega a 99%. USGS e IEA
Ouro Nos EUA, cerca de 90 toneladas de sucata foram recicladas em 2025, o equivalente a uns 60% do consumo declarado. A conta soma sucata nova (restos de fabricação) e velha (produtos usados) e não separa o que veio de eletrônicos. USGS
Cobre No mundo, a oferta secundária (com sucata) respondeu por 33% da demanda em 2023. Nos EUA, o cobre de sucata deu cerca de 30% da oferta em 2025. IEA e USGS
Alumínio No mundo, a parcela reciclada subiu de 24% para 26% entre 2015 e 2023. IEA
Paládio Quando placas de circuito são processadas em fundições da rota do cobre, a recuperação do paládio pode chegar a 95% ou mais. Global E-waste Monitor

O chumbo mostra o que faz a diferença: segundo a IEA, as baterias chumbo-ácido valem pouco depois de usadas, mas regras bem desenhadas levaram a reciclagem quase ao total. Para os metais preciosos, o Global E-waste Monitor lembra que as altas taxas dependem de separar e tratar o lixo antes das usinas, o que ainda não acontece na maior parte do mundo.

Por que a reciclagem não substitui as minas

Existem quatro limites principais.

1. A demanda cresce mais rápido. Só dá para reciclar o metal que já foi extraído e usado, então a sucata fica sempre atrás do consumo. Segundo a IEA, a participação da oferta secundária na demanda de cobre caiu de 37% em 2015 para 33% em 2023, e a do níquel, de 35% para 31%. O lixo eletrônico, por sua vez, aumenta quase cinco vezes mais rápido do que a reciclagem registrada, segundo a UIT.

2. Os produtos demoram a virar lixo. Segundo a IEA, a maior parte do que as recicladoras de baterias recebem hoje são sobras de fábrica, que ainda devem ser dois terços do total em 2030. As baterias usadas de carros elétricos e de armazenamento de energia só devem virar a principal fonte a partir de 2035. O tema aparece também em Os minerais do carro elétrico: da bateria ao motor.

3. Muita coisa nem chega à reciclagem. Só 22,3% do lixo eletrônico mundial foi coletado e reciclado com registro em 2022. A UIT projeta que essa taxa caia para 20% em 2030. A IEA lembra que a coleta fica abaixo de 5% em países em desenvolvimento da Ásia e da América Latina, contra 40% a 50% na Europa e na América do Norte.

4. Alguns metais são difíceis de recuperar. As terras raras aparecem em pouca quantidade e espalhadas nos aparelhos. O lixo eletrônico de 2022 tinha cerca de 7,2 mil toneladas de neodímio, usado em ímãs, segundo o Global E-waste Monitor, mas separar esses ímãs custa caro, e o preço das terras raras ainda não paga a reciclagem em grande escala. O relatório diz ainda que o germânio não é reciclado do lixo eletrônico e que o lítio, embora recuperável, ainda não compensa economicamente nesse fluxo. Para entender o caso dos ímãs, leia Ímã de neodímio: o que é e por que está em carros elétricos e turbinas.

Quanto a reciclagem pode cobrir no futuro

As projeções da IEA, publicadas em novembro de 2024, consideram um cenário em que os países cumprem as metas climáticas anunciadas. Nesse cenário, até 2050:

  • a reciclagem reduz a necessidade de minas novas em 40% para cobre e cobalto e em 25% para lítio e níquel;
  • as baterias recicladas podem atender de 20% a 30% da demanda por lítio, níquel e cobalto, dependendo de quanto for coletado;
  • a oferta de terras raras recicladas triplica.

A própria IEA ressalta que a reciclagem não elimina a necessidade de investir em mineração: a demanda de meados do século ainda supera a produção atual, e as minas existentes perdem produção com o tempo. Sem mais reciclagem, porém, o investimento necessário em mineração seria 30% maior. E metais reciclados como níquel, cobalto e lítio emitem, em média, 80% menos gases de efeito estufa que os de mina.

E no Brasil?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) obriga fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes a montar sistemas de logística reversa (retorno dos produtos após o uso) para pilhas, baterias e eletroeletrônicos, entre outros itens. O Decreto 10.240/2020 detalhou as regras para os eletroeletrônicos de uso doméstico, com metas que começaram em 1% em 2021 e chegaram a 17% em 2025, calculadas sobre o peso dos produtos vendidos em 2018.

Os resultados ainda são modestos. Segundo o Global E-waste Monitor, o Brasil gerou cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022 (11,4 kg por habitante), o maior volume da América do Sul. A coleta e a reciclagem registradas somaram 79 mil toneladas, cerca de 3% do total, pela conta do MineraMente. O relatório também cita placas de circuito exportadas do Brasil para a Coreia do Sul para recuperação dos metais.

A Green Eletron, entidade gestora de logística reversa sem fins lucrativos, recolheu um recorde de 12,5 mil toneladas em 2025, segundo reportagem da CartaCapital com dados da entidade.

A novidade é a Lei 15.506/2026, que trata a mineração urbana como fonte complementar de minerais críticos. Empresas de mineração urbana podem receber créditos fiscais de até 20% do que gastam nessas atividades, dentro de um limite de R$ 1 bilhão por ano, de 2030 a 2034, para todo o programa. Para saber quais minerais entram nessa conta, leia Minerais críticos e estratégicos: o que são e por que viraram prioridade.

Então, vale a pena?

Vale, com a expectativa certa. A mineração urbana diminui a pressão sobre novas minas e reduz emissões, mas, pelo menos até 2050, não dispensa a mineração. Para outras ideias comuns sobre o setor, veja Mitos e verdades sobre a mineração: o que é exagero e o que é real.

Perguntas frequentes

O que é mineração urbana?

É a recuperação de metais e minerais de produtos descartados, como eletrônicos, baterias e veículos em fim de vida. A Lei 15.506/2026 a define como um processo de coleta, desmontagem, separação, beneficiamento e refino desses resíduos.

Reciclar lixo eletrônico pode substituir a mineração?

Não. Segundo a IEA, a reciclagem pode reduzir de 25% a 40% a necessidade de minas novas até 2050, num cenário em que os países cumprem as metas climáticas, mas a mineração continua necessária porque a demanda cresce.

Quais metais são mais reciclados?

Ferro, alumínio, cobre, chumbo e metais preciosos como ouro, prata e paládio. Nos EUA, quase todas as baterias chumbo-ácido são recicladas, e o ouro reciclado equivaleu a cerca de 60% do consumo em 2025.

Por que é difícil reciclar terras raras?

Elas aparecem em pouca quantidade e espalhadas nos aparelhos, e separar os ímãs custa caro. Hoje a reciclagem atende no máximo 1% da demanda mundial por terras raras.

Onde descartar eletrônicos no Brasil?

Em pontos de recebimento dos sistemas de logística reversa previstos no Decreto 10.240/2020, como os mantidos por entidades gestoras. O aparelho deve ser entregue desligado e sem dados pessoais.

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Fontes

  1. UIT e Unitar – The Global E-waste Monitor 2024 (relatório completo, março de 2024)
  2. UIT (ONU) – Global E-waste Monitor 2024: comunicado de imprensa (20/3/2024)
  3. IEA – Recycling of Critical Minerals: Executive summary (novembro de 2024)
  4. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Lead (fevereiro de 2026)
  5. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Gold (fevereiro de 2026)
  6. USGS – Mineral Commodity Summaries 2026: Copper (fevereiro de 2026)
  7. Planalto – Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos)
  8. Planalto – Decreto nº 10.240/2020 (logística reversa de eletroeletrônicos)
  9. Senado Federal – Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026 (texto integral)
  10. Green Eletron – página institucional
  11. CartaCapital – Lixo eletrônico ainda fica esquecido nas casas dos brasileiros (5/8/2026)

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